Pessoas sem história e pessoas que tem história

As mãos cheias de luvas, tento respirar para dentro e não consigo. Céus, quanto ar em todo este pó, penso para dentro, assim como respiro. Penso que seria estranho se alguém me visse assim, com toda essa máscara, o que pensaria? Tento me pensar de fora. A mesa vai se descascando, a tinta vai escorrendo, uma poça de laranja vai nascendo sobre o chão de asfalto, e penso que logo será uma nova mesa, um recomeço afinal. “Talvez seja choro de mesa”, penso olhando para toda aquela poça. “Eu também choraria se pudesse recomeçar assim”, penso então, pensando em um mundo em que também pudesse trocar de tinta, e como isso seria bom. Foi quando apareceu o rapaz.

“Ela vai ficar sem história”, me diz o rapaz.
“Quem vai ficar sem história?”
“Ela, a mesa. Muda a cor, muda a alma, e logo já não se lembram de quem se é. Como o céu”.

Olho para o céu e lembro de Vique, que deve me esperar. Olho para o rapaz. Que rosto seria esse rosto?

“Como, como o céu?”

O rapaz não se parece com nada nem com ninguém. Não devo conhecê-lo, concluo após um exame profundo da ponta de seu nariz e de suas olheiras mal nutridas.

“Como o céu, ora. Todos os dias lavado pelo sol, quando não pela chuva, nunca consegue ser o mesmo. Porque acha que sempre nos espantamos a cada sol que nasce e a cada outro que se põe? Nos esquecemos. Não é a toa que ninguém se mete a fazer uma história do céu”.

Vique sim era capaz se parecer com muitas coisas. Vique era alguém que se encontrava com cavalos verdes mancos e com arbustos de amoras aladas nas fábulas que vem antes do sono. Vique poderia ser preta e branca, como o cinema. Mas e esse rapaz, o que quer afinal?

“O que você quer, afinal?”, lhe pergunto com uma aspereza desconhecida.
“Preciso de ajuda”.
“Que tipo de ajuda?”
“Está vendo este bilhete? Ele precisa chegar ao número 1404”.
“E se não chegar?”
“Se não chegar estou acabado”.
“E porque você mesmo não o leva”.
“Não posso. Se for visto, também estou acabado. E tem que ser agora”

Não preciso dizer que a história não fazia sentido. Por outro lado, o que me custaria? Que mal poderia fazer? Claro que eu teria de deixar a mesa para trás, a poça laranja se aumentando. Logo seria outra mesa, e tudo seria novo então. Lembro de Vique que deve estar me esperando, seus olhos batem nos relógios da casa e voltam, e batem e voltam novamente, doloridos como um jogo de tênis. Sim, eu poderia ir, mas perderia tempo. Seria isso o que ele quer? Roubar o meu tempo? Mas com que intenções? Se ao menos eu o conhecesse.

“Quem é você afinal?”, lhe pergunto com uma decisão desconhecida.
“Dê. Meu nome é Dê”.”E como posso confiar em você, Dê?”
“Confiar porque? Basta entregar o bilhete ao 1404”.
“Podem fazer algo comigo ao chegar no 1404”.
“Podem fazer algo contigo também ao voltar, ou se não for. Seria triste um mundo em que nada lhe fizessem”.
“Você é daqui? Trabalha?”
“E se eu não fosse? Você decidiria entregar ou não o bilhete pelo fato de eu ser ou não um estrangeiro? Ou por ser desempregado”
“Não é isso, é apenas que preciso de algo, de uma história. Não se pode confiar em alguém sem história”.
“Então você não confia no céu”.
“Como?”
“Não confia no céu. O céu não tem história. Se dependesse de uma chuva tomar água, preferiria cavar a chuva no chão. De todo modo, você também não tem história, e ainda assim parece confiar em si próprio”.
“Como não tenho história?”
“Deve dizer a si mesmo que tem uma namorada, que tem uma mesa que era laranja mas que logo será azul, ou marrom com bolinhas, que portanto é alguém que trabalha com as próprias mãos, o que lhe coloca em oposição as pessoas que não tem as próprias mãos, que as perderam no jogo, ou para o governo, ou uma grande empresa importadora de mãos. E então sente que pode se explicar assim para o mundo. Mas não pode”.
“E como eu poderia me explicar”
“Não pode. É como querer ser um mapa. O marrom é a terra e o azul é a água, e a parte tracejada é uma fronteira em disputa que, apesar disso, jamais sairá de lugar, pois se trata apenas de um mapa. Não há guerras em um mapa. Não se toma banho de mar no azul do mar de um mapa”.
“Ainda assim é alguma coisa. Não posso falar de todo o universo a cada vez que quero saber onde estou, e afinal, temos apenas uma boca e alguns minutos de vida por dia, e todas as desconfianças do mundo. Qualquer coisa pode servir”.
“Qualquer coisa pode servir para quê?”
“Para confiarmos”.

Dê olha para o céu que não tem história. E ele, o que teria? Penso novamente em Vique, em todos os relógios do mundo que já não me pertencem. Se eu partisse, Dê jamais me veria novamente, daria no mesmo, mas ainda assim sinto uma certa culpa e sinto que talvez, se eu fosse, depois eu poderia dormir, e amanhã acordaria, e diria a Vique tudo o que fiz, enquanto faço uma panqueca de manhã, e moscas sobrevoam as plantas da janela, e as coisas serão diferentes do que eram. E é uma pena, uma pena mesmo, mas quando decido que sim, que eu poderia ir, entregar o tal bilhete de alguém sem história até o 1404, percebo que já estou em casa, que a televisão está ligada em algum telejornal que fala de cinco mortos no massacre de ontem, e Dê já não está mais na minha frente, mas na frente de qualquer outra coisa no mundo, ou talvez já não exista mais, ou nunca tenha existido. Agora na tevê há um grande mapa avermelhado, e que combina bem com o marrom novo da nova mesa da sala, que já nem parece mais ter todos os vinte ou trinta anos de idade que tinha há apenas algumas horas atrás.

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