Arquivo do mês: maio 2014

A história do pequeno relógio que se destrói com o tempo

Ao caminhar pela casa todas as coisas tremem. Talvez devessem mesmo tremer, por medo, por frio, por covardia, por vingança, por terremoto, por dinamite, todas as coisas do mundo são motivo para que as coisas do mundo tremam afinal. Lote me olha tentando fazer com que seu olhar tenha medo, mas sabendo que nada disso deveria fazer sentido. Penso que ia falar sobre o dedo, o médico, talvez devesse ir afinal, um dedo tem suas utilidades afinal, mas não falo.

— O que foi isso?, pergunta Lote assustando os olhos.

Era o relógio caindo pelo chão, caindo pelo chão como se tivesse se jogado. Pode o tempo se quebrar?, pensei, mas depois pensei que era não fazia sentido, que o tempo já começa quebrado, já se espatifou desde o começo, zilhões de segundos espalhados por todo o cosmos e a tarefa eterna de juntá-los, de colá-los um a um.

— Ainda funciona?, pergunta Lote sem interesse.

Penso se deveria responder, e depois penso que seria mais importante falar do que ia falar antes, mas o que era? Pães, pelos, cheiros de esgoto saindo do banheiro, tantas coisas definhando pela casa e pela vida, lá fora pode ser que chova, mas nada disso devia se tornar assunto, não agora, não agora, que cada tragédia espere a sua vez para acontecer, como em uma boa e civilizada fila, tudo muito bem organizado.

— A parte redonda se soltou do resto. Melhor assim, lhe respondo, deixando a Lote o papel de acreditar em mim ou não.

Lote acreditou, ficava melhor assim, um relógio sem corpo, que flutuasse pela casa como deveria flutuar tudo o que passa com o tempo. No fundo, definhava também. Dois meses depois, esbarrei-lhe com a sacola de compras e foi abaixo novamente. Pedaços de tempo espalharam-se por todas as partes. Abaixei-me e então, pus-me a catar como se fazia antes, nos tempos do começo dos tempos. Talvez fosse um novo começo, uma nova era, um novo universo com outra lógica, talvez os gansos amarelos estejam no poder, talvez o céu seja de comer com cebola, e então olhei para me certificar, quase atônito com a curiosidade que acabava de inventar, e vi que os segundos passavam tranquilamente como antes, porém sem fazer girarem juntos as horas ou os minutos. Rodavam em círculos inúteis de quem passeia sem ter para onde ir.

— Como um aquário?, perguntou Lote, buscando uma metáfora.

Tive vontade de lhe responder “como qualquer coisa”, mas nada disse, pois não seria uma metáfora e porque não tinha vontade de me sentir vazio naquele momento, de modo que preferi um copo d’água.

— Também como um aquário?, insistiu Lote, e para ela também já não era metáfora.

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Onde está a natureza

Tenho andado me perguntando, afinal, “onde estaria a natureza”? Não está ao meu redor, penso em seguida, observando o meu redor, repleto de paredes preenchidas por retratos, retrados preenchidos por imagens, e não posso atravessar nem uma nem outra. Talvez também haja janelas, mas é difícil reconhecê-las em meio à confusão. Do chão, sinto apenas algo que tenta arrastar meu pé para longe.

– Você vem?, perguntam de longe sem que eu saiba quem é.

Tento pensar em uma árvore. Deve ter um tronco, deve ter um começo e um fim, as raízes de um lado se enterrando no barro com todos os seus medos e seus choros escondidos, os galhos do outro se balançando para brincar de liberdade, e coloco meu ouvido por perto.

– Você não vem?, ainda perguntam e acho que vem do vizinho.

Talvez seja apenas cansaço, mas pouco tem me interessado mais do que as vozes das árvores, mesmo que nunca as tenha ouvido.

– Você não vem, agora afirmam, com um suspiro melancólico, como uma brisa, como um pássaro que assobia, porém sem voz, se transformando em mero sopro, em mero vento. Forma sem conteúdo.

E eu continuo aqui, a orelha grudada à árvore de minha imaginação, esperando ouvir uma voz que ainda, que já não vem. Pensando que talvez não esteja ouvindo com a orelha certa. Que talvez eu nem mesmo a tenha.

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