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A história do pequeno relógio que se destrói com o tempo

Ao caminhar pela casa todas as coisas tremem. Talvez devessem mesmo tremer, por medo, por frio, por covardia, por vingança, por terremoto, por dinamite, todas as coisas do mundo são motivo para que as coisas do mundo tremam afinal. Lote me olha tentando fazer com que seu olhar tenha medo, mas sabendo que nada disso deveria fazer sentido. Penso que ia falar sobre o dedo, o médico, talvez devesse ir afinal, um dedo tem suas utilidades afinal, mas não falo.

— O que foi isso?, pergunta Lote assustando os olhos.

Era o relógio caindo pelo chão, caindo pelo chão como se tivesse se jogado. Pode o tempo se quebrar?, pensei, mas depois pensei que era não fazia sentido, que o tempo já começa quebrado, já se espatifou desde o começo, zilhões de segundos espalhados por todo o cosmos e a tarefa eterna de juntá-los, de colá-los um a um.

— Ainda funciona?, pergunta Lote sem interesse.

Penso se deveria responder, e depois penso que seria mais importante falar do que ia falar antes, mas o que era? Pães, pelos, cheiros de esgoto saindo do banheiro, tantas coisas definhando pela casa e pela vida, lá fora pode ser que chova, mas nada disso devia se tornar assunto, não agora, não agora, que cada tragédia espere a sua vez para acontecer, como em uma boa e civilizada fila, tudo muito bem organizado.

— A parte redonda se soltou do resto. Melhor assim, lhe respondo, deixando a Lote o papel de acreditar em mim ou não.

Lote acreditou, ficava melhor assim, um relógio sem corpo, que flutuasse pela casa como deveria flutuar tudo o que passa com o tempo. No fundo, definhava também. Dois meses depois, esbarrei-lhe com a sacola de compras e foi abaixo novamente. Pedaços de tempo espalharam-se por todas as partes. Abaixei-me e então, pus-me a catar como se fazia antes, nos tempos do começo dos tempos. Talvez fosse um novo começo, uma nova era, um novo universo com outra lógica, talvez os gansos amarelos estejam no poder, talvez o céu seja de comer com cebola, e então olhei para me certificar, quase atônito com a curiosidade que acabava de inventar, e vi que os segundos passavam tranquilamente como antes, porém sem fazer girarem juntos as horas ou os minutos. Rodavam em círculos inúteis de quem passeia sem ter para onde ir.

— Como um aquário?, perguntou Lote, buscando uma metáfora.

Tive vontade de lhe responder “como qualquer coisa”, mas nada disse, pois não seria uma metáfora e porque não tinha vontade de me sentir vazio naquele momento, de modo que preferi um copo d’água.

— Também como um aquário?, insistiu Lote, e para ela também já não era metáfora.

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Onde está a natureza

Tenho andado me perguntando, afinal, “onde estaria a natureza”? Não está ao meu redor, penso em seguida, observando o meu redor, repleto de paredes preenchidas por retratos, retrados preenchidos por imagens, e não posso atravessar nem uma nem outra. Talvez também haja janelas, mas é difícil reconhecê-las em meio à confusão. Do chão, sinto apenas algo que tenta arrastar meu pé para longe.

– Você vem?, perguntam de longe sem que eu saiba quem é.

Tento pensar em uma árvore. Deve ter um tronco, deve ter um começo e um fim, as raízes de um lado se enterrando no barro com todos os seus medos e seus choros escondidos, os galhos do outro se balançando para brincar de liberdade, e coloco meu ouvido por perto.

– Você não vem?, ainda perguntam e acho que vem do vizinho.

Talvez seja apenas cansaço, mas pouco tem me interessado mais do que as vozes das árvores, mesmo que nunca as tenha ouvido.

– Você não vem, agora afirmam, com um suspiro melancólico, como uma brisa, como um pássaro que assobia, porém sem voz, se transformando em mero sopro, em mero vento. Forma sem conteúdo.

E eu continuo aqui, a orelha grudada à árvore de minha imaginação, esperando ouvir uma voz que ainda, que já não vem. Pensando que talvez não esteja ouvindo com a orelha certa. Que talvez eu nem mesmo a tenha.

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Pessoas sem história e pessoas que tem história

As mãos cheias de luvas, tento respirar para dentro e não consigo. Céus, quanto ar em todo este pó, penso para dentro, assim como respiro. Penso que seria estranho se alguém me visse assim, com toda essa máscara, o que pensaria? Tento me pensar de fora. A mesa vai se descascando, a tinta vai escorrendo, uma poça de laranja vai nascendo sobre o chão de asfalto, e penso que logo será uma nova mesa, um recomeço afinal. “Talvez seja choro de mesa”, penso olhando para toda aquela poça. “Eu também choraria se pudesse recomeçar assim”, penso então, pensando em um mundo em que também pudesse trocar de tinta, e como isso seria bom. Foi quando apareceu o rapaz.

“Ela vai ficar sem história”, me diz o rapaz.
“Quem vai ficar sem história?”
“Ela, a mesa. Muda a cor, muda a alma, e logo já não se lembram de quem se é. Como o céu”.

Olho para o céu e lembro de Vique, que deve me esperar. Olho para o rapaz. Que rosto seria esse rosto?

“Como, como o céu?”

O rapaz não se parece com nada nem com ninguém. Não devo conhecê-lo, concluo após um exame profundo da ponta de seu nariz e de suas olheiras mal nutridas.

“Como o céu, ora. Todos os dias lavado pelo sol, quando não pela chuva, nunca consegue ser o mesmo. Porque acha que sempre nos espantamos a cada sol que nasce e a cada outro que se põe? Nos esquecemos. Não é a toa que ninguém se mete a fazer uma história do céu”.

Vique sim era capaz se parecer com muitas coisas. Vique era alguém que se encontrava com cavalos verdes mancos e com arbustos de amoras aladas nas fábulas que vem antes do sono. Vique poderia ser preta e branca, como o cinema. Mas e esse rapaz, o que quer afinal?

“O que você quer, afinal?”, lhe pergunto com uma aspereza desconhecida.
“Preciso de ajuda”.
“Que tipo de ajuda?”
“Está vendo este bilhete? Ele precisa chegar ao número 1404”.
“E se não chegar?”
“Se não chegar estou acabado”.
“E porque você mesmo não o leva”.
“Não posso. Se for visto, também estou acabado. E tem que ser agora”

Não preciso dizer que a história não fazia sentido. Por outro lado, o que me custaria? Que mal poderia fazer? Claro que eu teria de deixar a mesa para trás, a poça laranja se aumentando. Logo seria outra mesa, e tudo seria novo então. Lembro de Vique que deve estar me esperando, seus olhos batem nos relógios da casa e voltam, e batem e voltam novamente, doloridos como um jogo de tênis. Sim, eu poderia ir, mas perderia tempo. Seria isso o que ele quer? Roubar o meu tempo? Mas com que intenções? Se ao menos eu o conhecesse.

“Quem é você afinal?”, lhe pergunto com uma decisão desconhecida.
“Dê. Meu nome é Dê”.”E como posso confiar em você, Dê?”
“Confiar porque? Basta entregar o bilhete ao 1404”.
“Podem fazer algo comigo ao chegar no 1404”.
“Podem fazer algo contigo também ao voltar, ou se não for. Seria triste um mundo em que nada lhe fizessem”.
“Você é daqui? Trabalha?”
“E se eu não fosse? Você decidiria entregar ou não o bilhete pelo fato de eu ser ou não um estrangeiro? Ou por ser desempregado”
“Não é isso, é apenas que preciso de algo, de uma história. Não se pode confiar em alguém sem história”.
“Então você não confia no céu”.
“Como?”
“Não confia no céu. O céu não tem história. Se dependesse de uma chuva tomar água, preferiria cavar a chuva no chão. De todo modo, você também não tem história, e ainda assim parece confiar em si próprio”.
“Como não tenho história?”
“Deve dizer a si mesmo que tem uma namorada, que tem uma mesa que era laranja mas que logo será azul, ou marrom com bolinhas, que portanto é alguém que trabalha com as próprias mãos, o que lhe coloca em oposição as pessoas que não tem as próprias mãos, que as perderam no jogo, ou para o governo, ou uma grande empresa importadora de mãos. E então sente que pode se explicar assim para o mundo. Mas não pode”.
“E como eu poderia me explicar”
“Não pode. É como querer ser um mapa. O marrom é a terra e o azul é a água, e a parte tracejada é uma fronteira em disputa que, apesar disso, jamais sairá de lugar, pois se trata apenas de um mapa. Não há guerras em um mapa. Não se toma banho de mar no azul do mar de um mapa”.
“Ainda assim é alguma coisa. Não posso falar de todo o universo a cada vez que quero saber onde estou, e afinal, temos apenas uma boca e alguns minutos de vida por dia, e todas as desconfianças do mundo. Qualquer coisa pode servir”.
“Qualquer coisa pode servir para quê?”
“Para confiarmos”.

Dê olha para o céu que não tem história. E ele, o que teria? Penso novamente em Vique, em todos os relógios do mundo que já não me pertencem. Se eu partisse, Dê jamais me veria novamente, daria no mesmo, mas ainda assim sinto uma certa culpa e sinto que talvez, se eu fosse, depois eu poderia dormir, e amanhã acordaria, e diria a Vique tudo o que fiz, enquanto faço uma panqueca de manhã, e moscas sobrevoam as plantas da janela, e as coisas serão diferentes do que eram. E é uma pena, uma pena mesmo, mas quando decido que sim, que eu poderia ir, entregar o tal bilhete de alguém sem história até o 1404, percebo que já estou em casa, que a televisão está ligada em algum telejornal que fala de cinco mortos no massacre de ontem, e Dê já não está mais na minha frente, mas na frente de qualquer outra coisa no mundo, ou talvez já não exista mais, ou nunca tenha existido. Agora na tevê há um grande mapa avermelhado, e que combina bem com o marrom novo da nova mesa da sala, que já nem parece mais ter todos os vinte ou trinta anos de idade que tinha há apenas algumas horas atrás.

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Para que serve?

Hoje chove lá fora, e eu aqui dentro, pensando no molhado. Aproveitando para fazer horas que sirvam para pensar em mim mesmo. “Para que sirvo, afinal?”, me pergunto, para em seguida me responder “para nada. Mas provavelmente essa não é a melhor pergunta”.

Escrevo um pequeno manifesto para mim mesmo, que é a maneira adulta e politizada de se perguntar o que você quer ser quando crescer, apenas que com a voz mais grossa e mais para dentro e talvez com mais medo também.

Resolvo que padeço de preguiça. Lá fora a água corre atrás de um bueiro. Atrás da água, corre um cachorro, com a língua para fora como se tivesse sede. Talvez seja um pouco isso a vida, uma grande enchente que não sabe o caminho da garganta. Situação tão absurda que esquecemos até que estamos abandonados na rua, encharcados, sem casa nem toalha nem sol de secar.

Com tantas palavras no mundo, acho que sirvo apenas para as que quero escrever. E torcer para que sirva de algo para quem fica lá fora. No fundo, devemos ser todos assim, quero acreditar. Olho outra vez para o lado, e há uma multidão encharcada, do outro lado da rua, a língua para fora, como se estivessem com sede. Queria gritar, queria jogar-lhes guarda-chuvas ou copos de água. E ainda assim, ao invés disso, resolvo escrever, e torcer para que sirva.

Senão, talvez da próxima vez em que eu escreva, as palavras tenham a ver com o resto do mundo. Questão de torcer. Ou talvez de tamanho. Ou ainda de um bom manual de instruções. 

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O metrô e o belo e o feio de Amélie Nothomb

Hoje terminei meu primeiro livro de metrô. É um livro de metrô porque foi lido entre esperas subterrâneas entre estações, enquanto meu corpo desaparecia do universo para ressurgir em outro ponto da cidade. A melhor forma de desaparecer é dentro de livros, disso não há dúvidas. Nesse sentido, combinar o metrô e a literatura geram um desaparecimento duplo, e faz com que possamos estar no subterrâneo das coisas em todos os seus sentidos, o que é fantástico.

Dentro de um carro, não se pode desaparecer. Pelo contrário, cercado por todos os cantos por todo um dicionário de psicopatias, e por cima por radares e outros pássaros eletrônicos, estar em um carro é o exato oposto do desaparecimento. É um aparecer extremo e exaustivo de si mesmo.

De todo modo, o livro era o Péplum, da Amélie Nothomb. Sobre um arqueólogo do futuro que teria sido o responsável pela erupção sobre Pompéia, e que sequestra uma jovem escritora belga do século XX que teria descoberto seus planos, e mais uma série de coisas que não devem ser descritas, e de todo modo, não é meu ponto. Meu ponto é que em determinado trecho da narrativa, a escritora sequestrada determinada que tudo aquilo não poderia existir, todo aquele mundo incrível e absurdo e genocida e violento e pragmático que ela descobria no século XXIII, e que não poderia existir pelo simples fato de que no fim das contas, apenas podem existir as coisas que são belas.

Não sei se todo o não-belo, se todo o feio desaparece do mundo pelo fato de ser feio, e de fato me parece que antes de se fazer o feio desaparecer, há ainda outra opção, que é a de fazer do feio o motivo de uma existência heroica, e afinal uma pessoa pode viver belamente da destruição das coisas que considera feias, seja lá como ou com que dicionário suas feiosidades e belosidades são definidas e exemplificadas. No mais, o que me espanta é que no fim das contas, se por um lado há tantas explicações para o mundo, tantas psicanálises, ovos e galinhas brotando eternamente da terra, tantos deuses e bíblias e grandes montanhas andinas que um dia caminhavam pela terra, no fim das contas, essa também é daquelas que servem.

Em outras palavras, viver me parece cada vez mais ser olhar para o outro lado diante daquilo que algo dentro de mim entende que é feio (a estética, a estética, nada tão ágil, nada tão rápido no gatilho do faroeste que é o cérebro quanto a estética). Depois até pode chegar a razão, com toda a sua gorda e arrastada lentidão, e fazer sua crítica socialista as definições de feio e de não-feio, mas isso porque a crítica socialista é ela também o belo, pois a razão e todo o iluminismo no fim das contas consistem em grande parte justamente na tentativa do sequestro do belo pelo racional. E o que não é a razão senão uma grande mistura de pensamentos demorados e impulsos estéticos impensados, sofismas que tentam transformar tudo o que é feio e torto e mesmo o próprio belo em algo belo, porém com rótulos intelectuais e portanto, também ainda mais belos?

Olhar para o outro lado é sempre uma das opções, pois a outra é destruir o que é feio. Nesse sentido, imigrar também pode ser destruir, assim como destruir também é reconstruir. Na mente de quem parte ou de quem foge, sempre ficam escombros, e toda uma grande operação de reconstrução que tenta fazer com que tudo tenha as devidas cores e os sons dos devidos pássaros e fontes. A nova construção costuma se chamar memória, e seus concretos são tão maleáveis que se transformam com a força das betoneiras e dos altos-fornos do pensamento.

Aliás, nada é tão recorrente quanto olhar para o outro lado e tentar encontrar uma maneira bela e sem arestas de todo o feio que se vê no mundo, e que é quase que todas as coisas, e por isso toda a dificuldade em combinar o mundo com os sapatos e com a cor dos olhos.

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O aspirador de pó e Griffintown

Agora que passou a mudança, e passaram as burocracias, o olhar perdido em busca de novidades, um pouco em busca do olhar perdido dos outros também (será que os olhos dos outros se perdem em mim? difícil parar de pensar nisso), enfim, passados os primeiros dias, tudo se acalma e dá para sentar um pouco e para descansar um pouco.

Charlotte agora começa a aprender a se comportar em casa. Também se acalma, se deita na frente das portas fechadas ao invés de miar. Acostumou-se com as portas fechadas em três ou quatro dias. Eu me bato nelas tem mais de vinte anos.

Por outro lado, teve uma ajuda especial. O monstro do aspirador, que eu e Lidia ligamos, especialmente a noite, quando tentávamos dormir e Charlotte queria entrar. Para cada miado, o aspirador soltava um rugido assustador. No princípio para Charlotte deve ter sido o pavor, imagino. Depois, entende-se que se o miado cria o medo, o silêncio sempre pode fabricar a tranquilidade. E é curioso isso de ter de aprender o silêncio, e não o contrário.

Provavelmente, todos deveríamos ter um pouco de aspirador de pó por detrás de alguma porta.

Na terça foi o filme a céu aberto, le Cinéma sous les Étoiles no Parc Saint Gabriel, e toda aquela história sobre o incrível estábulo de Griffintown, toda a resistência a especulação imobiliária, tudo cheirando a grama e a toalhas de piquenique. Há uma cena em que a câmera passeia com a carruagem pelas ruas de Griffintown, o cocheiro, o último deles, apontando os prédios novos, dizendo o que eram como se ainda os visse, e nossos olhos se esfregando para tentar ver também. O cocheiro dizendo que as pessoas já não dizem mais bonjour, que as mudanças do mundo são a questão da politesse, e ele diz bonjour, e um jovem lhe olha debaixo, assustado, talvez confuso.

Esse olhar assustado do jovem me perseguiu depois do filme. Bonjour. E ao mesmo tempo era tão difícil desejar que um estábulo de cavalos de passeio chamado Horse Palace continuasse a existir. Estavam todos tristes e todos sendo demolidos. Também eles antes demoliram. O chão parece asfalto mas é sempre o esqueleto de alguém.

De resto, estava lá a diretora, conversava com a plateia que era de Griffintown, sobre o filme que se passava em Griffintown, debaixo de estrelas que brilhavam como elas brilham em Griffintown. E nunca o cinema me pareceu fazer tanto sentido. E nunca o mundo me pareceu poder ser tão pequeno. A ponto de alguém gritar com uma câmera, e ser ouvido, mesmo apesar de estar tão perto.

 

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Notas abertas dos dias de Montréal

O problema tem sido acordar, porque é quando consigo emprestar palavras para o que espero do meu dia. Ir ao supermercado, voltar do supermercado, misturar alfaces e um salame vegetal, encontrar um pão que caiba, e então chamar de almoço. Retirar o alarme de incêndio, antes e depois (o almoço é o incêndio, aparentemente). Fazer carinhos em Charlotte na hora certa e evitar fazê-los na hora errada.

Penso então que é curiosa essa vida em que os carinhos são planejados. Mas de todo modo, curiosa também é a vida em que planejamos os planos.

De resto, a rotina é um balão no qual soprei tanto gás hélio (daquele que só sai de pulmões) que agora voa, e eu fico pulando aqui embaixo. O que fazer de verdade da vida? Em três meses, há a faculdade, e uma faculdade costuma servir para dar sentido. Mas e antes, o que serve ao sentido?

(Charlotte mia do lado de fora do escritório. Não devo abrir a porta para que não pense que foi ela quem a abriu, que foi a força dos miados, que é maior do que todas as portas, etc, etc).

Ultimamente, tenho tentado me convencer de que faz sentido a bricolagem, e todas essas tintas e lixas e coisas ásperas que tem de ser lixadas. Incrível a quantidade de asperezas no mundo (seria esse o sentido: torná-lo liso? há algo de fascista em tudo isso). Não vejo porque não fazer. O problema da bricolagem é que ela é tudo o que há no mundo que está fora de mim, e que desconheço, pois que sempre martelei apenas para dentro, e pintei para dentro, e apertei parafusos para dentro. Para fora, sou duro. E é difícil dar sentido quando se está duro.

Com a língua é o mesmo.

Acho que na hora de brincar de sentido, sempre recorro a escrita. Ainda que seja apenas uma duplicação da minha própria confusão, pelo menos através dela consigo enxergar alguma coisa. Como se escrevesse janelas, e lesse minhas cortinas abertas.

Ler um livro no metrô, também faz sentido. Ou pegar a bicicleta no depósito da varanda, apoiá-la no joelho e então andar ao lado dos carros, com menos rodas e mais vento no rosto, e os dentes de leão que voam e nos mordem por dentro, suaves, antes de virarem um espirro. Tudo o que parece heroico faz sentido. Talvez seja isso o que devo guardar por hoje.

Amanhã talvez vá ao jardim comunitário. Depois, o curso de francês. Tudo bastante aleatório, e um balão que desce aos poucos do universo, murcho, de novo, querendo fazer cara de rotina.

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