Arquivo da tag: canção

Alouette, alouette

O caminho para Abitibi é longo, e lento. É preciso abreviá-lo. O ônibus está lotado, as pessoas entediadas, a paisagem há tempos não apresenta surpresas, as variações nos tons de branco não bastam, é preciso apelar, apelar para outro sentido, outro sentido que não a visão.

Um dos rapazes começa a cantar.

‘Alouette, gentille alouette
Alouette, je te plumerai
Alouette, gentille alouette
Alouette, je te plumerai’.

Aos poucos, um a um, começam a acompanhar a música. A canção, que depena a cabeça, o bico, as costas, e outras tantas partes da pobre alouette, também abrevia tempo, e estrada. Repleto de penas, o ônibus voa. Abitibi, agora, chegará mais rápido.

Meses depois da chegada, o trabalho é cansativo. Até onde o olhar alcança, não há perspectiva de fuga. O que não é problema para velhos bûcheurs québecois que sabem que a fuga não está no alcance do olhar para fora, mas sim, do olhar para dentro.

O rapaz do ônibus, enquanto isso, desolado, canta quase todos os dias. Deixa a sensação de solidão e tristeza de lado com uma velocidade que a ele mesmo impressiona. E que lhe dão uma esperança incontida de que a vida, afinal, pode ser bela também em Abitibi. Uma esperança de que a imensurável distância, e sua proporcional solidão, podem ser superadas. Podem, e serão.

Logo, porém, o rapaz começa a compreender que sua esperança não é nada além de uma invenção, criada por sua própria canção. Que o mundo criado por sua gentille alouette só dura enquanto é cantado. Que o silêncio é o avesso da música, e que nele, era o próprio rapaz quem era, lentamente, depenado pela vingativa alouette sem voz. E então se espantava com a facilidade que tinha para manipular seus próprios sentimentos. E se perguntava se, afinal, era mesmo capaz de saber o que é a tristeza, e o que é a alegria.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized