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Prefácio, e a apresentação de Erre

Acho que sempre tive um pouco essa obsessão de querer descrever o mundo. Assim, descrever, mais ou menos como se poderia disfarçar uma pessoa de si própria e achar que assim ela será melhor reconhecida. Ou como ocorre com os castelos em reforma que escondem suas vigas expostas, farelos de cal, e cimento, e outras vergonhas, com um imenso vestido-castelo, como que na expectativa de que seus visitantes não prestarão atenção na poeira monumental escondida debaixo do tapete – igualmente monumental – e se contentarão com aquela imensa bidimensionalidade exposta à sua frente, de um concreto que balança a cada brisa que passa, como se tremesse, talvez de frio, talvez por pudor.

Ou ainda como ocorre com aqueles que, não contentes com o mundo, nem com todos os seus desdobramentos, resolvem que é necessário que se faça dele um mapa, mas não qualquer mapa, mas sim um que corresponda a toda a sua grandeza, cobrindo os continentes e os oceanos e as pornografias e as poesias com sua imensa bandeira cartesiana de latitudes, e longitudes, e grandes manchas azuis, cheiro de papel e outras tintas, onde infelizmente não se pode mergulhar, nem se sujar – os mapas, ao contrário do mundo, não gostam de se misturar com os seres vivos, eis a verdade dita.

Não, a terra dos mapas não é soprada pelos ventos todos os dias através da minha janela, os mapas não me abraçam em acessos de ternura, tampouco me insultam quanto sentem raiva, e mesmo que insultassem, seriam insultos orgulhosos demais para deixarem suas bocas de mapa e invadirem meus ouvidos, estes sim, ainda pouco mapeados.

Mas ainda que eu reclame, e por absurdo que possa parecer, essa arte da descrição, isso de repetir as coisas que já existem, de redundar, sempre, estranhamente me fascinou.

E talvez, afinal, isso se deva justamente pelo fato de saber que, inevitavelmente, eu fracassaria.

Fracassaria como toda tentativa de replicar, de reproduzir, qualquer outra coisa, sempre fracassa. A imitação, mesmo sem querer, sempre acaba criando algo novo. E esse fracasso inevitável, ele é a nossa sorte. Sorte de quem sofre deste mal cartográfico, dessa necessidade entranhada de falar, e falar, e falar, e falar do mundo, como fofocadores sofisticados, como porta-vozes do espaço-tempo, quase presos a um estranho desejo de eterno retorno – do qual Nietzsche jamais suspeitaria –, e que só é quase graças as nossas próprias incompetências. Máquinas fotocopiadoras defeituosas que somos, ao invés de copiar, terminamos fotocriando.

Estranho mal esse, o cartográfico, aliás.

Me parece que tem algo a ver com uma necessidade de tradução, talvez mais do que descrição. E o curioso é que não se trata sequer de uma necessidade de tradução de fora para dentro, ou de dentro para fora, como imaginariam aqueles mais entusiasmados com as perspectivas de superação da incomunicabilidade humana – aqueles que pensam que Mastroianni realmente poderia ter ouvido o convite da jovem provinciana que lhe chamava para uma vida melhor caso ela tivesse, não sei, um mega-fone ou outro destes transportadores baratos de palavras que não voam sozinhas. Não, não, não. Me parece ter muito mais a ver com uma necessidade de tradução de dentro para dentro. Tem a ver com uma espécie de cansaço dessa coisa de viver como um aspirador de pó, sugando espaço-tempo indiscriminadamente, jogando pelos ares aquilo que não importa e retendo apenas aquela parte grossa, não por outra razão, mas por ser grossa, demais para passar pela grade fina do filtro interno. Tem a ver, então, com um anseio por retirar essas coisas do filtro

(essa gaiola das coisas, que nos acontecem como pássaros)

e fazê-las passar por essa máquina de tradução que somos – ou, ao menos, que temos –, nem que seja somente para cuspir novamente no mundo todos esses passarinhos de acontecimentos, apenas que, agora, na forma de passarinhos palavras, espécie de realidade tratada e filtrada, mundo potável que expelimos para que alguém com sede, possa beber.

De modo que posso dizer afinal que não se trata de uma necessidade de tradução de dentro para dentro, mas sim, de dentro para dentro para fora. Que fique claro! O mundo passa – e precisa passar, para devir mundo – por dentro de mim para poder dar a volta por mim mesmo – algo como a circulação sanguínea, com a diferença de que sangra quando a cortamos – para poder então e enfim sair novamente de nós, assim como todas as coisas. Sim, porque consta, e eu o creio, que nada que entra em nós pode, ou mesmo deve, ficar dentro de nós. E não falo somente dos alimentos, da água e do ar, ainda que fale também dos alimentos, da água e do ar, que por sinal, também são outros que jamais tomamos emprestado ao mundo sem que depois os devolvamos devidamente traduzidos. O ar e a água já não são os mesmos quando retornam, e nem falarei dos alimentos. Mas falo aqui, sim,

de tudo o que nos atravessa, e que através de nós, são obrigados a se verem de volta ao mundo repetidos, e repetidos de tal forma torta, e sem jeito, que terminam por serem criados, deixando aquilo que antes eram para trás, seja para que se convertam em memória do que outrora fora, seja para que se convertam em esquecimento. E o mais impressionante é que até aí, quando lembramos do que eram, estamos novamente os repetindo, e eventualmente, recriando.

Mais ou menos como faço quando ouço uma história de um mito fundador maia e digo que a história é do Eduardo, ou quando o Eduardo me conta uma história sobre um mito maia e eu digo mais tarde para Rita, quando encontro Rita, que a história não é nem maia nem do Eduardo, mas que estava no ar e eu peguei, e que fala de nós mesmos, ontem, quando rimos e depois choramos, ou talvez durante. Ou ainda, como acontece quando ouço o violão de Patton tocando blues há quase cem anos porque lhe dera na telha depois de brigar com Bertha Lee, e transformo o violão de Patton em um grande evento musical que se entrelaça com multidões de outros violões, e depois guitarras, e vozes e ouvidos.

E depois me esqueço, e quando me lembro, o violão de Patton já não é mais um violão que ecoa sabe-se lá quais turbulências musicais com Bertha Lee, já não é mais um emaranhado de ecos malcriados que se recriam em violões alheios (e afinal, que artista não é um eco malcriado), mas sim, quando me lembro, já se parece muito mais com um violão, que se confunde com a voz rouca embriagada ao fundo, e que se lembra de si próprio muito mais do que é lembrado, como que berrando, para fazer-se ouvir, em sabe-se lá que canto de mim mesmo que o coloquei a empoeirar.

Não que o faça por desdém, mas afinal, além de máquinas defeituosas de fotocopiação, o que não somos nós senão imensos empoeiradores do mundo?

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