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Pequenos buracos negros

Um dia W estava em casa, e W comia o que provavelmente era seu almoço, ainda que na vida de W este tipo de coisa nunca fosse tão definida e nunca se dizia vou almoçar ou vou lanchar, os dentes sempre tomaram conta da boca de W e por isso W geralmente comia em silêncio. E era em silêncio que comia quando lhe chegou um pacote, que era grande, mas também era bege, com umas inscrições a caneta na parte de cima, mas não na parte debaixo. W pegou o pacote nas mãos e leu a parte de cima e tentou ler a parte debaixo, e quando viu que não havia mais nada a ler, agradeceu ao carteiro e voltou a cadeira aonde se sentava e comia antes de tudo isso, um prato com pequenas coisas sólidas que se escondiam debaixo de uma grande coisa líquida. Nem mesmo ele se lembrava o que era. E então pensou que isso de não se lembrar era uma coisa boa, e que afinal era capaz de surpreender-se consigo mesmo a cada garfada, e que poderia viver de pequenos esquecimentos.

— É incrível o quanto se pode divertir com isso!, ele gritou, provavelmente para sua esposa, e depois gritou novamente pedindo por mais pão, e então novamente refletindo sobre a natureza humana, e que seria talvez possível viver como uma sopa, talvez como a parte líquida da sopa mas, principalmente, como a parte sólida. E tudo era muito salgado, e não havia água em casa, nem leite.

Quando W enfim se levantou, quase já não se lembrava mais do pacote, mas se lembrou. Ao se lembrar, W se lembrou de seu conteúdo, do selo da Golden Iron Co. estampado na parte de cima do pacote, e se lembrou do fato de que não precisava abrir o pacote para saber o que havia por dentro,  e se lembrou de que sentia calor, e de que todas as portas e todas as janelas de sua casa estavam fechadas. E então riu de si mesmo, pois sentiu como se fosse uma pessoa dessas pessoas que se escondem em lugares fechados e escuros, cheios de arestas e de tijolos falsos que abrem portas para salas falsas que escondem cofres falsos. W nunca tinha nada para esconder. Em outros tempos, W se fechava em lugares escuros para esconder o chão dos próprios pés, pois que assim os pés se enganavam e começavam a voar. Mas também podiam se enganar e cair, como em um grande precipício, e o grande precipício jamais teria fim não fosse dona Bira chegar e acender a luz, pois dona Bira sempre chegava e sempre acendia a luz nos planetas e nas galáxias dos outros, e até hoje W cai um pouco quando vê dona Bira se arrastando pelas ruas. Mas isso eram outros tempos, e agora, já era tarde.

***

Daí que W precisava sair de casa, precisava encontrar com Ferreira, contar a história do pacote para o Ferreira pois quando o Ferreira ficava sabendo de histórias de pacotes, ele primeiro ficava pensativo, depois começava a imaginar coisas, depois ficava com raiva e batia em uma parede, pois o Ferreira sempre bate em paredes e é isso o que diverte W afinal. De modo que W precisava sair de casa, precisava ver Ferreira esmurrar uma parede, e a parede fazendo crac uma vez e depois crac outra vez. Claro que W precisaria antes se arrumar, ainda que talvez já estivesse arrumado, nunca sabia dizer muito bem afinal, havia vezes em que podia jurar que estava perfeitamente bem arrumado e ajeitado até sair de casa e descobrir que seu rosto estava em trapos, seus cabelos voavam e suas calças caíam, e por isso buscava um espelho desesperadamente para poder enxergar melhor, poder se consertar melhor, mas então já estava em público, as pessoas já riam de W e já era tarde. E quando esse tipo de coisa acontecia com W, ele achava que ria com a boca aberta e os olhos abertos e brilhosos, mas logo que conseguia um espelho descobria que na realidade chorava.

Só que agora W não tinha um espelho diante de si, e ao olhar ao redor, logo se deparava com a escuridão de sua casa, onde reflexo nenhum jamais poderia se produzir, e se atormentava. E se não fosse o reflexo do vidro da televisão desligada, W jamais teria uma imagem de si, jamais enquanto estivesse em casa, e quando saísse talvez seus cabelos voassem novamente, voassem como uma gaivota, com todas as suas penas e todas as suas caras de gaivota, voando para onde W não gosta de voar.

***

Ainda assim, W tinha o hábito de olhar para reflexos de si mesmo, e afinal, reflexos nunca faltam, e há sempre um espelho retrovisor, sempre um aparelho de televisão, sempre um par de olhos perdidos, sempre uma janela suficientemente limpa, ou suficientemente suja, dependendo daquilo que se busca encontrar do outro lado. E no caso, do outro lado, o que W queria encontrar era o resto de suas faces. “Usamos três ou quatro faces apenas ao longo da vida”, ele dizia, “sem saber que tipo de pessoa seríamos se usássemos todas as outras”, ele completava, e todas as outras faces eram milhões e milhões, cada uma representando um W diferente, um W desconhecido, com infinitas possibilidades, um W que ainda não havia agido no mundo, e isso o entusiasmava. Houve uma vez quando criança em que W olhava para si mesmo em uma pequena poça d’água – W fazia suas próprias poças d’água com pequenos copos de água quando era necessário – e descobriu que poderia franzir o cenho de uma maneira em que seu cenho jamais havia sido franzido, e que o deixava com uma cara de sério que era mais séria do que a dos outros. Gostava de usá-la para andar de bicicleta, e sua nova cara combinava com o vento, combinava com seu cabelo que voava, com o pó de brisa de orvalho e fumaça de chaminés da grande siderúrgica. Depois, W voltava para casa e fazia uma nova poça d’água, e se olhava com o rosto ainda mais sério, franzindo ainda mais o cenho, agora cheio de pó preto de orvalho metálico e brilhoso, e se sentia poderoso.

Mas agora eram outros tempos e W não gostava de pensar nessas memórias, queria pensar em seu pacote, apenas no pacote, e não queria crianças bagunçando suas ideias. Franziu o cenho como quem tranca memórias desnecessárias em uma pequena prisão de rugas, de pele e de carne, enjauladas com o mesmo franzido com que W costumava andar de bicicleta. O pó preto já não se misturava mais no rosto com orvalho, e por isso já não brilhava, deixando pequenos pontos pretos e opacos espalhados por um rosto sombrio.

***

— Diabos, alguém tem que abrir as janelas dessa casa, ninguém enxerga nada desse jeito, exclamou W, provavelmente para a sua esposa, ainda que logo começasse a abrir as janelas por conta própria, iluminando por conta própria a pequena mesa de madeira e as três pequenas cadeiras de madeira, todas elas bambas, e W quando se sentava nas cadeiras para comer e levava o garfo para dentro de alguma coisa mais sólida, a cadeira tombava para um lado e fazia tum, e fazia tum de novo na volta. Iluminou-se também um pequeno armário, e em cima do armário se iluminou também uma pequena foto de W, um W amassado e amarelo que entrava em uma faculdade amassada e amarela, pois tudo nessa região era amassado e amarelo e quente, e por isso era tão necessário fechar as janelas, fechar as janelas sempre, ainda que agora elas estivessem abertas e deixavam apenas um pequeno facho de sombra que dava para a cozinha e terminava em uma pequena entrada da parede. W ainda não tinha notado aquela entrada da parede, uma entrada tão escura e tão remota que nem mesmo o sol mais forte que há no mundo conseguia penetrar.

E foi assim que W, hipnotizado pela escuridão e por todas as possibilidades que ela oferecia, resolveu que era ali que deveria permanecer o pacote, e que ninguém mais o veria pelos próximos meses, ou quem sabe pelos próximos anos, quinze, ou talvez trinta.

***

E algumas coisas mudaram na vida de W depois de guardar o pacote no espaço escuro da parede da cozinha. A primeira mudança mais notável aconteceu logo ao sair de casa, posto que geralmente gritaria, presumivelmente à sua esposa, que estava saindo de casa, que iria se encontrar com o Ferreira, ou o Juca, ou iria ao trabalho, ou compraria cigarros brancos com cheiro de hortelã, ou ainda não gritaria e sairia em silêncio, pois às vezes é melhor sair em silêncio e deixar os gritos e as respostas para a doce criatividade da imaginação de uma segunda-feira de manhã. Desta feita, porém, W deixava apenas um bilhete, preso à geladeira por um ímã com a logomarca da Golden Iron Co., e o ímã era de plástico revestido de cobre e dizia algo genérico sobre a produção de metal e sobre a imensa grandiosidade da empresa de maneira geral, porque se pode ser grande de maneira geral, e tudo isso segurando bravamente um enorme papel sulfite, quase todo em branco, apenas coberto por alguns pequenos pontos pretos  e uma linha apressada em tinta azul, e a tinta azul dizia que W, mas que já voltava, e nada mais.

E foi assim que W foi, caminhando pelas ruas até se encontrar com Ferreira. Não sabia o porquê de ter escrito um bilhete quando poderia ter dito qualquer coisa com sua própria voz ou quando poderia ter gritado, mas escreveu um bilhete e assim estava bem, e não precisava entender estes anseios da própria mente, sendo já tão complexos e tão confusos os atalhos da cabeça humana, afinal. E quando encontrou-se finalmente com Ferreira, conversou sobre futebol e sobre bebidas, sobre o céu e o clube social, talvez uma piscina, e Ferreira lhe falou de um novo cachimbo e de um novo cheiro que saía do novo cachimbo e W ficou bastante interessado, e então W quis falar do trabalho e quis falar de lingotes e de coisas que derretem, e foi então que as coisas começaram a acontecer. W não conseguia falar do trabalho, e também já não conseguia mais falar sobre a fábrica, e sempre que tentava abordar o assunto, sempre que se aproximava das máquinas de prensar, dos lingotes, e mesmo da laminação e do cafezinho e de todas as cores de todos os botões, já não conseguia falar, e sua voz tangenciava a fábrica e ia parar em cigarros, e a fumaça cinzenta dos cigarros aromatizados de W subia silenciosa rumo ao teto e desaparecia como um pequeno fantasma de hortelã.

Neste momento, fazia sol como sempre fazia sol. W suava e suas gotas de suor embotavam seus olhos e seu cenho se franzia de maneira involuntária, sem que W quisesse parecer sério ou andar de bicicleta ou esquecer de algo. Ao seu lado via-se o grande morro e todas as suas crateras, pequenas e grandes, como se o morro estivesse com fome, como se o morro estivesse comendo a si próprio. Via-se também um grande letreiro, quase tão grande quanto o morro, e por isso talvez, quase tão faminto. “Sua bebida, sua liberdade”, dizia o letreiro. W imaginou grandes dentes de ferro saindo de dentro do grande morro. Imaginou também que gostaria de ser livre. Não imaginou o que isto significaria, mas aquele não era o momento de imaginar significados. Conversas como aquela não se prestam a estas questões semânticas, e ele precisava dizer algo já que já não poderia mais falar sobre o trabalho, sobre os lingotes, ou sobre o cafezinho, ou sobre as cores de todos os botões.

***

E é claro que seu Ferreira estranhou o comportamento de W, o sempre tão falante amigo W, tão inimigo dos silêncios a ponto de sempre estar em busca de preenchê-lo, sempre encontrando um assobio onde não há vento ou encontrando uma boa mentira para que o ar não fique vazio demais e o vazio não acabe entrando na mente, como ele dizia, porque assim é que acontece com as coisas que são feitas de silêncio, quando menos se percebe, elas se espreitam e se esgueiram, e quando menos se percebe, ele dizia, entram no primeiro buraco que encontrarem pela frente, e podem entrar pelas orelhas e quando se vê, o silêncio toma o cérebro das pessoas, assim como toma os corredores das minas quando se está lá embaixo e se tem de assobiar e contar mentiras para sobreviver. Pessoalmente, seu Ferreira preferia as mentiras aos assobios, pois as mentiras não precisam de vento para espalhar, é o ouvido ele mesmo que as suga por conta própria, e por isso é que elas são de fazer mais barulho e tudo o mais.

Mas naquele dia, W não estava falante e não assobiava, havia deixado o silêncio entrar, e o silêncio havia entrado e havia brincado e dançado em seus ouvidos e em suas mentes, e isso acontece e não há nada demais, só que logo outras pessoas passaram a sentir a mesma coisa e já não havia mais ar para tantos silêncios, de modo que W teve de falar.

E então já não houve mais silêncio. Pois W falava de alegrias e de coisas que são bonitas e refrescantes, e falava que algumas coisas são fascinantes e que outras coisas são interessantes, e que é importante se sentir bem consigo mesmo, ou fazer aquilo que se quer, ou comer o que se quer comer ou o contrário, ou ainda que é errado errar e que o correto seria acertar, e que é sempre melhor ser melhor, assim como é melhor que o melhor seja mais barato do que todos os outros que são piores e mais caros, e tudo isso além dos assobios, sempre os assobios soprados com a boca bem fechada e contraída, e W ficava às vezes vermelho de tanto assobiar, mas lhe fazia bem, e as pessoas todas gostavam e voltavam a ficar cada vez mais suas amigas, afinal, quem não gosta de ouvir alguém assobiar de vez em quando, e uma boa música no ar é melhor do que música nenhuma voando, ou estatelada pelo chão, sem pássaro com asas que a carregue.

***

E W gostava de viver assim, de maneira vaga e genérica, pois todos gostavam de ouvir suas frases vagas e genéricas e se sentiam bem na companhia delas, pois se identificavam e ficavam felizes com o fato de que, afinal, havia alguém que sempre dizia algo com o qual eles podiam concordar, e eles se sentiam bem concordando. E quando W recebeu outro pacote, já não precisou parar para qualquer tipo de ruminação, e tampouco se preocupou em conferir seus reflexos em poças de água ou televisores ou com a clareza do sol que invadia suas paredes morosas e derretidas, tão delicadas e tão apertadas para que nelas coubessem outras pequenas escuridões, pois que cabia uma e já estava bom assim. De modo que W abriu a porta de sua casa e depois a fechou, não sem antes deixar um bilhete no ímã da geladeira que dizia bom dia e boa noite, entre outras coisas alegres e joviais.

Ainda era cedo pela manhã, mas não tão cedo e já não havia tantas pessoas pelas ruas, e apenas uma e apenas outra, acenavam e partiam, e W no geral passava despercebido pois assim era que gostava de passar nessas horas, despercebido, ora, era impossível ter uma sombra ou um caminho mais discreto nesta cidade, impossível debaixo deste sol que torna indiscretas todas as coisas discretas, e depois as queima todas, e se pode sentir a fumaça das coisas e das pessoas discretas saindo de suas casas e de suas cabeças, e talvez por isso este cheiro, este cheiro enferrujado, sempre perfurando o céu. Mas W seguia seu caminho e o sol já não lhe importava, sentia-se em casa debaixo do sol, o sol como uma casa, ou como uma grande estrada repleta de caminhos, e como não há caminhos sem atalhos, W já tinha todo um mapa mental das escuridões possíveis e impossíveis da cidade, observadas diariamente ao longo dos últimos meses de sua vida, em princípio como uma curiosidade e depois como uma necessidade e depois como um jogo viciante e seus olhos não podiam ver uma tampa de bueiro ou uma pedra muito grande ou um hidrante vermelho e abandonado ou uma sombra de um senhor alto e barbudo fazendo sombra sobre a calçada e ele pedia desculpas pois pensava se tratar de um boneco apenas, e a vida ficava divertida assim, pois a vida podia ser uma grande coleção de sombras e de pequenos refúgios onde a luz e os olhos humanos não alcançam afinal, e se sentia bem pensando no mundo como uma grande caixa repleta de pequenas surpresas, que um dia seriam abertas e seriam descobertas, como presentes em caixas verdes e vermelhas e amarrados com fitas azuis ao redor de uma grande árvore de natal.

Além do mais era sempre tentador quando via um canto escuro, e isso era o problema também, ser uma pessoa, e portanto ter coisas que não devem ser vistas ou ouvidas, pois sempre há coisas que devem ser controladas e a única maneira de manter as coisas sob controle é mantendo as coisas em lugares escuros ou fechados ou trancados, como um inconsciente ou uma pequena sala vermelha, ou porta escondida debaixo do assoalho da sala, faz nhec nhec e talvez um dia notem, mas de todo modo qual chão não faz nhec nhec, era um som sofisticado afinal, e também era ousado e ao mesmo tempo era rústico, e ninguém ousaria perguntar algo ao nhec nhec pois nele apenas se pisa, apenas se delicia com os mistérios dos estrados de madeira que nunca tem nada a dizer, nem nunca terão. De todo modo, era tentador, e logo W começou a imaginar os grandes homens e as grandes mulheres, todos eles deviam ter seus tijolos falsos, chefes de departamento, poetas, presidentes, todos com grandes e espaçosos inconscientes, muito maiores do que o espaço reservado para a memória, sem dúvida, se não se pode esconder, deve-se esquecer, melhor uma senha de banco esquecida do que mal-guardada, como quando W deixava seus pequenos quebra-cabeças amontoados em um canto do quarto, e então vinha alguém e provavelmente era seu irmão ou o Neco, e lhe tomavam uma janela ou uma nuvem de céu ou deixavam um buraco em um balão vermelho, e o balão jamais voaria novamente, nem com todos os sopros de todos os ventos, nem se W fechasse os olhos, ou apagasse as luzes, e de todo modo havia dona Bira.

Mas, no mundo de W, encontrar a escuridão era a graça do mundo, assim como depois perdê-la de vista também era a graça do mundo, como quem atira a bola para longe para depois ir buscá-la por conta própria, ainda que sempre tivesse sua própria geografia de sombras na mente por segurança, e logo controlava até mesmo o sol e sabia quando as sombras se projetavam, por quantos metros e em qual direção, de acordo com a hora, sombras avançando a três centímetros por minuto, às vezes mais dependendo do ângulo, cada sombra tendo seus próprios minutos, mais curtos e mais longos, seu próprio tempo em seu próprio universo. E W refletia. No fim das contas, contrário de tudo aquilo seriam os holofotes, seria um mundo sempre ligado na tomada, desligar a noite para a eternidade, e qual seria a graça de um mundo assim? Não, sempre deve haver algo a se revelar, pensava W, sempre algo de novo a ser descoberto, sempre essa sensação de que alguém está escondendo algo de alguém, e se a moral é o preço a se pagar por isso, então.

***

O problema, o problema mesmo do mundo era que já não havia mais escuridão suficiente, a maior parte já está tomada, afinal, são séculos de segredos acumulados – e desvelados –, e por isso todos os buracos. W caminhava pelos buracos da mina, uma de tantas da Golden Iron Co. cheirando a dinamite e a carvão e o pó preto novamente tomando o rosto de W, aquele buraco tem piadas de mau gosto sobre o chefe feitas ao longo de dezessete anos de serviço, aquele tem evidências de treze anos de pães com gergelim tomados – extorquidos – da cantina além do pão único regulamentar, aquele outro mais triangular e pontudo, parecendo uma cabeça deformada de criança, tem valores de contabilidade de despesas com pólvora e outros explosivos arredondados para cima ou para baixo de acordo com as circunstâncias, e segundo W não há nada mais escuro, nada mais longe dos sentidos humanos do que aquilo que está para além de todas as vírgulas do universo. Não, não é pelo ouro ou pelo ferro ou pelo níquel que se escava ou se dinamita, mas pelos buracos que ficam, e o problema todo é que quanto mais se cava e mais se dinamita, mais a luz entra e é preciso cavar mais e mais e dinamitar mais ainda, e alguém lhe pergunta quanto cabe num buraco afinal, e até quando se pode fugir da luz, e W responde não sei, não sei, e volta a dar as suas garfadas, já sem se lembrar do que é que comia afinal de contas até sentir novamente o seu gosto e serem batatas cozidas.

***

O sol estava forte, mais forte do que nunca, e W tinha em uma das mãos um papel com algumas anotações a lápis, e depois a caneta, e também uma câmera fotográfica, e a câmera fotográfica não era igual às outras pois podia enxergar tão longe e também por causa das listras vermelhas que a tornavam tão única. “Tão única neste mundo tão cheio de coisas tão iguais”, W pensou, e por isso pensava também em onde a guardaria, pois tinha uma pá na outra das mãos, e tanta tanta terra nos pés. Mas W caminhava e caminhava, e apenas parou ao chegar em um pequeno terreno baldio em uma rua afastada, e como ninguém olhasse, tomou a pá nas mãos. “Cavar como se dá garfadas em um bom prato de jantar”, W pensou então, e ao seu redor os pássaros marrons cujo nome W nunca lembrava voavam assustados com toda aquela movimentação, e os fios de eletricidade que mal chegavam na região cambaleavam ao vento e se contorciam para que alguma geladeira ou alguma televisão pudesse anunciar a nova forma gel do que antes era um creme, render duas vezes mais, é sempre bom render duas vezes mais, enquanto um grupo de formigas passeava pelo terreno, e chegaria a causar espanto a maneira como eram capazes de distinguir seu próprio formigueiro no meio de todas aquelas centenas e centenas de pequenos montinhos de terra que se espalhavam pelo terreno baldio, cada montinho guardando um pequeno segredo, uma pequena parte de W que W não queria que fosse conhecida, pois W era único e devia continuar sendo único, e quando as moças da mercearia passavam em frente ao terreno baldio a noite, pensavam que alguém havia erguido um cemitério ao lado do bar do seu Quino, e faziam o sinal da cruz antes de seguirem seus próprios caminhos.

***

Neste dia, quando voltava para casa, W encontrou-se com dona Bira. Há quanto tempo não se viam, pensou, e não conformado em deixar sem resposta a própria pergunta, lembrou que não deviam se ver desde os tempos da casa laranja, de correr com Neco pelos milharais escondidos atrás da casa laranja e ouvir de Neco as histórias dele e de Jurema, quando Neco contava todos os detalhes do corpo de Jurema como se estar com Jurema fosse apenas prestar atenção aos detalhes, e W sorria com aquele mundo de Jurema revelado, e imaginava com seria o seu mundo, e como seria a sua Jurema, e depois dona Bira chegando e trazendo os dois para casa, W indo dormir sozinho, pensando em tudo o que poderia caber em uma sacola de pano de feira de domingo e em tudo o que não caberia, e então a janela aberta, correr pela estrada, o sol nascendo ainda de noite e ter de pensar em coisas como café da manhã, e depois em onde fica a fila para trabalhar de estocador, e depois trabalhar oito horas, e depois cinquenta horas, e depois durante a greve, e depois ser convidado para o jantar de fim de ano. O que estaria dona Bira fazendo ali agora, na sua frente, como se fosse um fantasma, W pensa, e quer fazer todos os tipos de perguntas a dona Bira, e quer falar de si mesmo a dona Bira, de todas as coisas que ele conseguiu, com as próprias mãos, e foi apenas então que percebeu que não poderia, pois se falasse sobre as próprias mãos, teria de falar de todos os buracos e de todas as coisas que estavam dentro dos buracos, pois suas mãos estavam sujas de terra e estariam sempre sujas de terra, não importava se lavasse com água, ou com detergente de coco, como fazia dona Bira, quando havia a casa laranja.

E então W pensou que poderia falar sobre outras coisas, falar sobre sua casa, falar sobre o televisor ou sobre Neco, ou falar sobre o jantar, o que comia e o que deixava de comer, sobre as batatas. Mas já não era possível. Não era possível falar quando todas as palavras estavam contaminadas uma pelas outras, e quando falar do sol e do calor e do assalto ao bar do seu Quino no outro dia sempre revelará também algo sobre pacotes e sobre câmeras fotográficas, a realidade muito mais real com as inovadoras lentes alemãs. Há um ponto, ele pensaria depois, em que já não há mais como controlar uma palavra, ou um raio de luz. Ambos tem vida própria, andam por aí como se não tivessem responsabilidades, dizendo e desdizendo as coisas, de modo que o que não se pode matar, deve-se deixar dormir, e dormir.

O fato era que W estava em algum lugar cada vez mais escuro, e ainda que pudesse querer, se tentasse, mesmo dona Bira não poderia acender essas luzes.

Mas dona Bira não tenta acender as luzes. Dona Bira lhe faz perguntas, pergunta por Neco, pergunta sobre seu trabalho, ficara sabendo do trabalho nas minas, de algumas coisas boas, e de algumas não tão boas também, soubera uma briga, mas W não responde, e dona Bira está berrando nos ouvidos de W que deve estar ficando surdo ou talvez louco, e as moças da mercearia passam e olham para W e fazem comentários de tapar a boca com as mãos e seguir caminhando.

***

Naquela noite, W também não disse oi ao chegar em casa, nem boa noite, e a casa permaneceu em silêncio. O encontro com dona Bira o havia perturbado, de alguma maneira. Não tanto pela sua incapacidade em proferir qualquer palavra para dona Bira, isso o chateava, mas podia conviver com isso. O que o incomodava era seu rosto, o rosto que teve durante o silêncio, um rosto que ainda desconhecia, que nunca tinha visto antes, um rosto de maxilares rígidos, ou talvez relaxados de mais, em que a boca em nenhum momento cogita se abrir e se fechar e a língua também não cogita se mover, não cogita deixar aquela jaula em que se havia metido, em que se conforma com sua própria prisão como tantas outras línguas em tantas outras prisões já se conformaram. Por um instante, W sentiu que eventualmente aquele conformismo cederia. Eventualmente, haveria um berro. Mas não havia de ser naquele instante. Naquele instante, precisava de um reflexo. De frente para a televisão, W vê aquilo que é, com todas as suas expressões, suas falhas e suas forças, seus traços de personalidade, suas linhas marcantes que sempre parecem serem capazes de levar alguém a algum lugar. Sim, W tinha todos os motivos para estar satisfeito consigo mesmo, e talvez até abrisse um sorriso enquanto ouvia uma voz ao fundo dizer o quanto era importante sorrir em todos os momentos da vida, e que a vida é sempre um grande sorriso refrescante, sempre um tubo de pasta de dentes nas mãos e os dentes que brilham como deveria estar brilhando a grande mina naquele momento, pois a mina nunca para, e há refletores e se pode ver mesmo de longe, mesmo na mais escura das noites mais escuras, ainda se pode ver alguma coisa. Isso, porém, W apenas imaginava, em sua casa de luzes apagadas e de janelas fechadas, e além da imaginação de W, a imagem da televisão e da moça dos dentes brancos era a única luz que entrava por seus olhos, já tão cansados, e de pálpebras tão pesadas.

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