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O aspirador de pó e Griffintown

Agora que passou a mudança, e passaram as burocracias, o olhar perdido em busca de novidades, um pouco em busca do olhar perdido dos outros também (será que os olhos dos outros se perdem em mim? difícil parar de pensar nisso), enfim, passados os primeiros dias, tudo se acalma e dá para sentar um pouco e para descansar um pouco.

Charlotte agora começa a aprender a se comportar em casa. Também se acalma, se deita na frente das portas fechadas ao invés de miar. Acostumou-se com as portas fechadas em três ou quatro dias. Eu me bato nelas tem mais de vinte anos.

Por outro lado, teve uma ajuda especial. O monstro do aspirador, que eu e Lidia ligamos, especialmente a noite, quando tentávamos dormir e Charlotte queria entrar. Para cada miado, o aspirador soltava um rugido assustador. No princípio para Charlotte deve ter sido o pavor, imagino. Depois, entende-se que se o miado cria o medo, o silêncio sempre pode fabricar a tranquilidade. E é curioso isso de ter de aprender o silêncio, e não o contrário.

Provavelmente, todos deveríamos ter um pouco de aspirador de pó por detrás de alguma porta.

Na terça foi o filme a céu aberto, le Cinéma sous les Étoiles no Parc Saint Gabriel, e toda aquela história sobre o incrível estábulo de Griffintown, toda a resistência a especulação imobiliária, tudo cheirando a grama e a toalhas de piquenique. Há uma cena em que a câmera passeia com a carruagem pelas ruas de Griffintown, o cocheiro, o último deles, apontando os prédios novos, dizendo o que eram como se ainda os visse, e nossos olhos se esfregando para tentar ver também. O cocheiro dizendo que as pessoas já não dizem mais bonjour, que as mudanças do mundo são a questão da politesse, e ele diz bonjour, e um jovem lhe olha debaixo, assustado, talvez confuso.

Esse olhar assustado do jovem me perseguiu depois do filme. Bonjour. E ao mesmo tempo era tão difícil desejar que um estábulo de cavalos de passeio chamado Horse Palace continuasse a existir. Estavam todos tristes e todos sendo demolidos. Também eles antes demoliram. O chão parece asfalto mas é sempre o esqueleto de alguém.

De resto, estava lá a diretora, conversava com a plateia que era de Griffintown, sobre o filme que se passava em Griffintown, debaixo de estrelas que brilhavam como elas brilham em Griffintown. E nunca o cinema me pareceu fazer tanto sentido. E nunca o mundo me pareceu poder ser tão pequeno. A ponto de alguém gritar com uma câmera, e ser ouvido, mesmo apesar de estar tão perto.

 

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