Arquivo da tag: máquinas

As próteses

O que aconteceria se eu não parasse de furar nunca mais?, ele pensa e pensa nisso com frequência, como pensa em batatas fritas com frequência, e pensa em estrelas, apenas algumas, mas não em todas.

— Talvez eu encontre petróleo, talvez batatas fritas, talvez água, céus que sede, ele diz, o som saindo como pensamento, desses que saem da voz do cérebro e batem na parede do cérebro e voltam, apenas que neste caso as paredes são feitas de brrrr e de brrrr, de máquina de perfuração, e todos eles são incessantes.

— Talvez eu encontre água, talvez eu encontre mulheres, pernas, mas não consigo pensar em pernas agora, talvez se fossem de Ida, mas mesmo de Ida, não consigo mesmo de Ida, não consigo, ele continua, e então fica calado, e gotas de suor brotam de todas as partes de seu corpo, seu corpo também furado – todo furado como a terra está furada, ele diz ainda.

E então para de falar. Porque voltando a falar, pode voltar a pensar. Pensar e falar são coisas tão diferentes, ele pensa, pois quando se pensa as palavras parecem vir mais soltas, como se não fossem minhas e fossem de alguma outra pessoa, como se eu estivesse contemplando, contemplando Jurema fazendo o feijão, contemplando o cheiro de Jurema fazendo o feijão, e contemplando o livro amarelo do João, o livro amarelo se abrindo do João e cheirando a feijão e a batatas, fritas, sim, ainda fritas e oleosas, e todas aquelas ideias oleosas do João ficam tão simples porque é como se ele dissesse as ideias todas para mim no ouvido e eu precisasse apenas absorver as ideias todas e tudo fica bem, e eu já sei o que fazer, como uma esponja, só que no bom sentido. Qual pode ser o bom sentido de uma esponja, eis aí algo que eu não sei ainda, ainda que elas sejam boas de limpar, aquelas gorduras todas que ficam no tacho da Jurema, sim, são boas de limpar, e além disso é só apertar que tudo o que entrou na esponja sai na mesma hora.

Pensar sobre pensar sobre pensar. Mas às vezes também é preciso de voz para se saber que se está vivo. E então sua voz fala.

— Pensar é como uma cortina, ele diz, e quando diz que pensar é uma cortina, faz um som estranho com a boca, e a boca para de falar e então a máquina para de furar, e ele pensa que ele próprio é a máquina e que faz brrr brrr brrr.

E é então que olha para o lado e vê João.

— E a Ida, como está?, ele pergunta, como se lembrasse que João não é apenas João, João não acaba ali, naquela figura cinzenta, que se mistura com as pedras e se mistura com as fuligens. Há mais além de João.

Mas João não ouve. Ou não responde, e isso pode significar não ouvir, ou não. Que coisa estranha, podia jurar que havia silêncio, podia jurar que havia parado de furar, mas não, não parou, e suas mãos vibram e seu corpo inteiro vibra. Sente que seu braço direito e que seu braço esquerdo já não são mais seus, mas a verdade é que talvez também nunca tenham sido, e ele quer que eles parem, quer mas eles não param, diabos, não param, e que talvez haja algum tipo de fiação que esteja solta, ou algo tenha estourado, sabe como são esses materiais hoje em dia, a corporação só nos entrega o que há de pior, de pior qualidade, mas deve haver algo que se possa usar para controlar os braços, deve haver, ele pensa, e seus olhos inspecionam seu corpo, e tudo ainda vibra e tudo ainda fura.

— Não, João me ouviu, tenho certeza de que me ouviu. Por que não quer falar comigo? O que fiz para ele, meu amigo João, João tão velho e de tantas guerras. A não ser que ele soubesse algo de Ida, mas não é possível, isso é certo, não é possível que ele saiba algo de Ida.

A máquina continua a furar, ou talvez seja ele quem fure, com as próprias mãos, quem sabe, suas mãos doem, suas mãos tem calos absurdos que são cinzas mas também são dourados e brilham no escuro. Até aonde iria isso tudo? Olha para baixo e vê que já não há mais chão naquilo que perfura, e que o que há é outra coisa. “Mas o que pode ser o chão que não é chão”, ele pensa enquanto se certifica de que ainda está de pé.

E é mais ou menos então que as luzes começam a surgir.

Primeiro, são as borboletas que vem voando em sua direção. E elas são todas bem coloridas, e todas voam com um voo estranho, de asas amarrotadas e velhas, sim, asas velhas, e voam com raiva também, pois batem em tudo o que aparece pela frente, mesmo que tudo seja tão, tão mais duro do que uma borboleta. E depois são árvores, copas inteiras que atravessam o buraco aberto pela máquina, e todos os pássaros e todos os insetos que podem viver em uma copa de árvore, e depois começa a furar água, e surge um lago. Um imenso lago, que poderia ser um oceano, mas é um lago e está cheio de buracos.

Ele olha melhor, tentando entender o que vê, mas também olha para João, e João parece trabalhar normalmente, seu olhar sério de quem não poderia ter outro olhar. Nenhum outro olhar e nenhum outro cenho faz sentido na mineração além daquele que é sério, ele dizia, enquanto guardava todos os outros em uma gaveta amadeirada de seu quarto. Se pode perder o controle de algumas coisas nessa vida, mas não de todas, ele dizia. Os olhares e os cenhos, todos eles devem ser como próteses. São nossos, mas não os controlamos como se fossem nossos. É preciso aprender a controlá-los todos os dias, ele dizia, ou perdemos o controle, como um sorriso perdido em um naufrágio, ou em uma piada ruim.

— Sim, talvez João saiba de alguma coisa afinal, talvez eu tenha dito algo para ele, agora já não me lembro. Lembro de falar com ele sobre Ida, mas não me lembro o que disse, mas essa boca, essa boca maldita deve ter dito algo, pois ela sempre diz algo, sempre, ele diz. E depois diz também, e seu rosto se contorce:

— Mas ela nunca desdiz.

E é por isso que ele pensa até hoje que deveria parar de falar, e parar de falar para sempre, pois que não se pode viver em um mundo em que as coisas que a boca fala nunca podem ser desditas. Por isso é que até hoje não se sabe até onde o buraco da boca vai. Quem iria querer explorar a boca a este ponto, quem iria querer conhecer o final de uma boca? O fim de uma boca, afinal, são todas as palavras do mundo, e toda a responsabilidade que vem com elas, conclui.

Ele olha novamente. Há cada vez mais água deixando o buraco, e cada vez mais buracos na água, e agora percebe que cada buraco na água na realidade são olhos, olhos vermelhos, como ficam os seus próprios olhos depois do trabalho, depois de toda aquela fuligem que é o ar e que é a terra ao mesmo tempo. “É a única terra em que posso pisar e que também posso assobiar”, ele pensa, tudo uma música, uma maldita música e uma maldita dança, tudo ao mesmo tempo.

Mas agora já não há mais água, há apenas um grande azul no buraco, e ele logo entende que o azul é o azul do céu.

Mas não pode ser o céu, não pode, se a máquina furava para baixo, como poderia ter ido para cima, isso não faz sentido, e quando as coisas não fazem sentido é preciso olhar para cima.

E ele olha para cima. Está tudo escuro. O céu não está lá.

Do lado debaixo, debaixo dos seus pés, um céu cada vez mais feio toma conta, pois está quebrado, está rachado, está cheio de fissuras por onde os pássaros não conseguem se segurar, e por isso caem, mortos todos eles. Por elas também vaza um líquido amarelo que deve ser o sol, e também um outro escuro, bem escuro, e que só pode ser a noite. Quem terá feito aquilo com o céu, ele pensa, como aquilo pode ter acontecido, ele pensa. Terá sido ele? Não pode, não é ele, ele não faria nada disso, não poderia, é impossível. Ora, ele nem mesmo está ali. Quem está ali é o João, ao seu lado, o rosto sério, como seu rosto está sempre sério, como pedra. Talvez tivesse sido João. Dirá isso mais tarde, se lhe perguntarem, ainda que, pensando bem, talvez não diga mais nada.

A máquina continua, mas ele já não pensa em parar. Parar o quê, se a máquina continua sozinha, e os braços continuam sozinhos, e agora também as pernas? Não cabe a ele parar aquilo tudo quando sequer está ali, não, ele não é responsável por nada daquilo, tem que pensar em outras coisas, no feijão, tem de comprar mais feijão para Jurema esta noite, antes que o mercado feche ou terá que se contentar com arroz puro. Pensando bem, agora, não sabe por que passara tanto tempo furando naquele lugar, o que pretendia encontrar afinal? Jamais havia encontrado nada, jamais havia. Sente como se tivesse vivido até então uma vida que jamais tinha sido sua, ainda que talvez fosse alguns pedaços sua, mas não sabe precisar quais. Mas agora tudo será diferente, sente que pode assumir o controle de sua vida, sente que pode fazer as coisas que quer fazer. Quem pode impedi-lo, afinal? De todo modo, é bom estar em casa, a máquina continua perfurando, continua destroçando aquilo que é de céu, mas não lhe diz respeito porque é bom estar em casa. Olha para o lado e vê Ida, olhando em sua direção com seu olhar que sempre, sempre é sedutor, e um enorme prato de batatas fritas, bem fritas e bem oleosas.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized