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Para que serve?

Hoje chove lá fora, e eu aqui dentro, pensando no molhado. Aproveitando para fazer horas que sirvam para pensar em mim mesmo. “Para que sirvo, afinal?”, me pergunto, para em seguida me responder “para nada. Mas provavelmente essa não é a melhor pergunta”.

Escrevo um pequeno manifesto para mim mesmo, que é a maneira adulta e politizada de se perguntar o que você quer ser quando crescer, apenas que com a voz mais grossa e mais para dentro e talvez com mais medo também.

Resolvo que padeço de preguiça. Lá fora a água corre atrás de um bueiro. Atrás da água, corre um cachorro, com a língua para fora como se tivesse sede. Talvez seja um pouco isso a vida, uma grande enchente que não sabe o caminho da garganta. Situação tão absurda que esquecemos até que estamos abandonados na rua, encharcados, sem casa nem toalha nem sol de secar.

Com tantas palavras no mundo, acho que sirvo apenas para as que quero escrever. E torcer para que sirva de algo para quem fica lá fora. No fundo, devemos ser todos assim, quero acreditar. Olho outra vez para o lado, e há uma multidão encharcada, do outro lado da rua, a língua para fora, como se estivessem com sede. Queria gritar, queria jogar-lhes guarda-chuvas ou copos de água. E ainda assim, ao invés disso, resolvo escrever, e torcer para que sirva.

Senão, talvez da próxima vez em que eu escreva, as palavras tenham a ver com o resto do mundo. Questão de torcer. Ou talvez de tamanho. Ou ainda de um bom manual de instruções. 

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Notas abertas dos dias de Montréal

O problema tem sido acordar, porque é quando consigo emprestar palavras para o que espero do meu dia. Ir ao supermercado, voltar do supermercado, misturar alfaces e um salame vegetal, encontrar um pão que caiba, e então chamar de almoço. Retirar o alarme de incêndio, antes e depois (o almoço é o incêndio, aparentemente). Fazer carinhos em Charlotte na hora certa e evitar fazê-los na hora errada.

Penso então que é curiosa essa vida em que os carinhos são planejados. Mas de todo modo, curiosa também é a vida em que planejamos os planos.

De resto, a rotina é um balão no qual soprei tanto gás hélio (daquele que só sai de pulmões) que agora voa, e eu fico pulando aqui embaixo. O que fazer de verdade da vida? Em três meses, há a faculdade, e uma faculdade costuma servir para dar sentido. Mas e antes, o que serve ao sentido?

(Charlotte mia do lado de fora do escritório. Não devo abrir a porta para que não pense que foi ela quem a abriu, que foi a força dos miados, que é maior do que todas as portas, etc, etc).

Ultimamente, tenho tentado me convencer de que faz sentido a bricolagem, e todas essas tintas e lixas e coisas ásperas que tem de ser lixadas. Incrível a quantidade de asperezas no mundo (seria esse o sentido: torná-lo liso? há algo de fascista em tudo isso). Não vejo porque não fazer. O problema da bricolagem é que ela é tudo o que há no mundo que está fora de mim, e que desconheço, pois que sempre martelei apenas para dentro, e pintei para dentro, e apertei parafusos para dentro. Para fora, sou duro. E é difícil dar sentido quando se está duro.

Com a língua é o mesmo.

Acho que na hora de brincar de sentido, sempre recorro a escrita. Ainda que seja apenas uma duplicação da minha própria confusão, pelo menos através dela consigo enxergar alguma coisa. Como se escrevesse janelas, e lesse minhas cortinas abertas.

Ler um livro no metrô, também faz sentido. Ou pegar a bicicleta no depósito da varanda, apoiá-la no joelho e então andar ao lado dos carros, com menos rodas e mais vento no rosto, e os dentes de leão que voam e nos mordem por dentro, suaves, antes de virarem um espirro. Tudo o que parece heroico faz sentido. Talvez seja isso o que devo guardar por hoje.

Amanhã talvez vá ao jardim comunitário. Depois, o curso de francês. Tudo bastante aleatório, e um balão que desce aos poucos do universo, murcho, de novo, querendo fazer cara de rotina.

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