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Mudanças de mundos

Violeta acelera o passo, sente que estão ficando para trás. Mal ouve quando Erre lhe chama, a voz vindo detrás, abafada, Erre sempre tão lento. “Violeta!”, Erre grita mais uma vez, mas agora já é tarde, pois já está muitos metros a frente de Erre, e está claro que Violeta não irá parar, não irá voltar ou ver o cachorro perdido no meio da rua, encontrado por Erre com o olhar manso, um olhar pastoso que escorre pelo chão e se mistura no asfalto quente. Tudo derrete nessas horas, Erre pensa, e pensa que provavelmente deveria seguir em frente, afinal. De todo modo, está morto, não há nada a se fazer. E ainda assim, sente que há algo de errado em deixá-lo assim daquela maneira, perdido e morto no meio da rua, algo errado em correr atrás de Violeta mesmo que Violeta não o chame, algo errado em voltar a gritar os mesmos gritos de guerra pela mesma causa justa e grandiosa pela qual gritava há apenas alguns instantes, e ainda mais errado quando nenhuma palavra lhe vem a mente quando cheira o ar e o ar tem cheiro de escapamento e de pele queimada, mas agora há um cachorro morto e parece que é preciso parar para pensar, para pensar em uma palavra para esse ar todo, que ficou pesado e está caindo em suas mãos.

***

A terra parece se sacudir quanto mais rápido se anda, como um pequeno terremoto. “Talvez seja mesmo um pequeno terremoto”, diz Violeta, que diz também que “seria bom se conseguíssemos provocar ao menos um terremoto”, toda essa gente aqui afinal e para quê. Mas Erre não entende o que conseguiriam com um terremoto. Isso, claro, considerando que se tratasse de um terremoto de verdade, mas como poderia um grande sacolejo de todas as pessoas, e árvores e ônibus e vasos de flores brancas e placas de trânsito poderia mudar alguma coisa? Não, tem de haver uma relação entre as coisas, não se pode simplesmente pensar que se pode mudar alguma coisa no mundo simplesmente porque se conseguiu fazer alguma coisa no mundo.

— Você ainda está pensando no cachorro, não está?, pergunta Violeta, a voz saindo pelos poros.

Erre não sabe se ainda pensa no cachorro. Recebe um cartaz de um colega ao lado, todo branco e pintado a dedo e a tinta guache por alguém e não sabe quem. Pensa que poderia saber através das digitais de tinta guache no cartaz, não seria difícil, iria até a delegacia e poderia fazer a denúncia, isso, claro, se ele fosse de fato de um espião infiltrado. Teria um plano se ele fosse um espião infiltrado, e o único problema é que provavelmente não era, e que as coisas são muito mais fáceis de se fazer desmoronar do que qualquer um dos seus contrários.

— Estou apenas pensando que não se pode fazer uma revolução com qualquer coisa, Erre responde por fim, ainda que já não se lembre bem do que fala. Às vezes as frases vem apenas como algo que deve ser dito, como se já tivesse ouvido essa mesma frase antes, neste mesmo contexto, e já não se precisa mais pensar e isso é muito prático. Já Violeta não se esquece das coisas, pensa nelas o tempo inteiro, e pensa agora mesmo no que irão comer hoje à noite. Não tem arroz, ela pensa, e é preciso ter arroz. Está tão cansada, e devem ter que ir ao mercado antes de voltar para casa. Por tudo isso, e porque está em uma manifestação e porque deve entrar no espírito da manifestação para que ela funcione, ela fecha os olhos e se concentra para imaginar, e então imagina que não está cansada, que lá fora há muitas nuvens, que há trovões, que há uma grande tempestade de suco de laranja e tudo está bem, tudo está bem. E então abre os olhos.

— Não tenho nenhuma dúvida de que se pode fazer a revolução com qualquer coisa, Violeta responde por fim com a boca, enquanto a mão direita atira um objeto contra o vidro de um sedã vazio, cinza-chumbo, um carro entre tantos outros, disparando seu alarme assustado, como são assustados todos esses carros, assustados e ninguém mais se preocupa com eles. Como crianças de um jardim de infância, e logo é preciso dizer alguma coisa calma e sossegada, como dorme neném, que a cuca vem pegar, que a cuca vem pegar, e então eles já vão ficando mais sonolentos, e se fazem umas carícias de leve na cabeça e já estão dormindo de novo, quando Erre pergunta a Violeta baixinho o que ela tinha atirado com a mão direita e ela responde que tinha sido qualquer coisa.

***

Agora Violeta sorri, como se um sorriso pudesse vir assim sem motivo, quando as pequenas vigas que seguram o mundo já estão fraquejando, ou talvez nem sejam vigas, apenas calços de madeira, ou tampas de garrafa de refrigerante, apenas o suficiente para que o mundo não balance demais quando se apóia nele de um lado. Erre quer sorrir assim também, quer dar uma sonora gargalhada, mas também não vê a que isso leva, nada disso está levando a nada, já a muito tempo, e Erre olha para os lados procurando por uma placa, uma bendita placa de rua para que possa estar em algum lugar. Mas Erre não está em lugar algum. Comprar margarina, mas comprar pão também, e provavelmente farinha de trigo e de linhaça, provavelmente tinham acabado, elas sempre acabam as farinhas, sempre na hora errada. Não vê como teriam tempo de ir no mercado. A não ser que fossem no outro, e seria o cúmulo e seria hipócrita, e Erre sente raiva pois sente que Violeta está pensando nisso, em ir no outro mercado, e quando olha para Violeta ela ainda sorri. Mas agora Erre pode ver o outro lado do sorriso, pois todo sorriso tem pelo menos dois lados, e alguns tem cinco e dezoito, e se formam pontes para que as pessoas atravessem os sorrisos de um lado para o outro, tudo muito alegre nesse mundo, muito jovial, e há um rapaz, um adolescente ele diria, sentado em um degrau que é quase chão, e parece chorar ainda que não chore.

— Ele não está te vendo, Erre diz por fim, mas Violeta o ignora, seu sorriso o ignora, Erre sente um sorriso sarcástico debaixo do sorriso simples e carinhoso que está por cima, como se fossem duas camadas de dois sorrisos diferentes, sobrepostos como um bolo, como tudo o que vem em camadas, uma escondendo a outra porque sempre deve haver algo para esconder outro algo. E aonde diabos estão eles, afinal? Não há nomes, Erre grita para si mesmo, e grita para si mesmo que não se pode fazer uma passeata dessa maneira, não é possível.

— Ele não está te vendo, estou te falando, Erre continua. E se visse, de que adianta? Você acha o que Violeta, que ele vai se levantar feliz e contente porque alguém sorriu para ele? Que os sorrisos saltam das bocas das pessoas e contaminam a boca alheia como doença? Por que não lhe dá um beijo de uma vez ou não lhe atira uma pedra como fez com o carro antes?

— Você tem razão, talvez eu devesse beijá-lo, mas você não tem razão, não era uma pedra. Que droga Erre, do que adianta parar de sorrir? Talvez devesse sorrir permanentemente, um sorriso perene, ascético e solidário para todos os que possam passar por mim com um déficit de sorrisos, todos os que precisam ver alguém alegre para saber que a alegria ainda é possível, porque essas coisa se esquecem, ou porque os sorrisos desentopem alguma coisa nas pessoas por dentro quando se passa por um.

Violeta segue caminhando e logo o rapaz fica para trás, ficando para trás o mesmo olhar triste e compenetrado em seus cadarços de tênis, um desamarrado e o outro não. Talvez fosse preciso ir para o outro mercado afinal, mas sabia que Erre não gostaria de admitir isso, não justamente naquele dia, mas então o que fazer? Também não sabe muito bem o que está fazendo, talvez não dê mesmo em nada afinal, mas não quer pensar nisso agora. Seus pés batem contra o asfalto e fazem barulho, e fazem plac, plac, plac. Seria isso uma manifestação, o som da borracha de seu All-Star contra um asfalto quente e bitucas de cigarro e restos de chicletes? Falarão com alguém no final, serão recebidos, é verdade, não se esqueceu disso, sim, serão recebidos, por uma pessoa muito grande e muito poderosa, mas e depois? O que significa isso, afinal, esse falar? Imagina sua voz saindo pela sua boca e entrando dentro de ouvidos poderosos em uma cabeça poderosa que irá processar sua voz como se processam aqueles troncos enormes de cana e no final tudo vira caldo e a voz também vira caldo, e se bebe e é incrivelmente doce de enjoar, e então depois o quê?

Depois Violeta olha para o ar, como que procurando algum sinal de vozes anteriores, como um grande depósito das coisas ditas, mas não uma coisa dita qualquer mas sim aquelas ditas com força que são as coisas verdadeiramente importantes. Seus olhos ouvem pássaros. Violeta se lembra do carro e do vidro quebrado, do alarme, aquilo poderia ser um problema afinal, e aliás de quem seria aquele carro? Pensa que poderia ser do rapaz, do adolescente choroso, seria possível? Não, o carro não seria dele com aquela idade. Pensa então que o mais importante era o gesto, e que se o gesto havia sido visto por tantas pessoas, e se todas elas tivessem entendido a importância do gesto, e que há tantas coisas a serem estilhaçadas no mundo e tantos cacos a serem criados antes que as colas possam pensar, então talvez valesse a pena, e o rapaz e o vidro seriam sacrifícios. Pensa nas lágrimas do rapaz como estilhaços, e então percebe que eles cortam. Poderia colar as lágrimas do rapaz depois, não poderia? Pensa novamente nas vozes, soltas no ar como sacos plásticos, e subitamente tem a ideia de que as vozes talvez ecoem pelos ares para sempre, apenas que de uma maneira que eles mesmos não podem compreender, mas que talvez outros entendessem, talvez os pássaros. As mesmas vozes, repetidas infinitamente, a cada instante, a cada instante, em eterna ladainha. Sim, como o canto dos pássaros. Violeta sente vontade de parar, e então quer cuspir naquele sol estúpido, mas já não tem forças.

***

Erre tenta se esquecer do cachorro morto, tenta arremessar a imagem, o mais longe que foge com a força dos braços. Seria mesmo dos braços que viria a força para o esquecimento? Provavelmente não, provavelmente há outro músculo mais adequado, escondido em alguma das cavernas do corpo. O cachorro morto, porém, logo volta com o vento, suavemente galopando em direção à lembrança. Erre tem a impressão de que está enjaulando sua alma dentro de sua mente, como se ela quisesse partir para um outro mundo de almas caninas e ele não permitisse, ele que insiste em se lembrar, Erre que tem os braços do esquecimento tão atrofiados. Porque havia parado para o cachorro morto, afinal, o que poderia ter feito? E ao mesmo tempo, tudo tão indigno, que pensa por fim que era isso o que queria ter feito, queria dar ao cachorro morto alguma dignidade, dessas em que as pessoas não passam por um corpo estendido no chão em uma rua e apenas o ignoram. Queria gritar e chorar por ele, pois é assim que se faz com aquilo que morre, e que por morrer tem ainda seus direitos em sua morte, ainda que metafísicos, direitos de que as pessoas vejam o seu corpo sem vida, e que ao vê-lo, elas parem. Mas a passeata não parou. E talvez fosse mesmo absurdo isso tudo, absurdo parar uma passeata por um cachorro morto, para purificar o quê, afinal? Muito pelo contrário, os mortos, acima de tudo, eles estão mortos, sejam eles caninos ou humanos, e viver pressupõe passar por cima deles, literalmente ou não, ainda que para isso seja necessária toda uma reeducação da alma para que a alma entenda de uma vez por todas que não, que ela e o corpo não são uma mesma coisa, e então entender que o corpo é como a terra, ou como o lixo, e aprender a passar por cima dos corpos, pois que qualquer outra coisa seria mera politicagem. Seria vestir o próprio corpo com o corpo alheio como quem veste uma jaqueta, de couro, negro como o asfalto quando novo.

Violeta parou de caminhar, tem uma pedra nas mãos e escreve algo na rua. Basta apertar uma pedra contra a outra para que uma pedra escreva na outra. Talvez seja assim também com os seres humanos. Seria isso o agir, o transformar o outro? Erre imagina um corpo que se esfrega em outro corpo, e então o transforma. Os corpos humanos não são duros como as pedras, são macios, esfregá-los não fará nada além do amor. Não que o amor não seja capaz de escrever, pelo contrário, ele escreve até mais profundamente do que uma pedra, pois o amor não se quebra quando se escreve com força demais, e o amor não fura e nem sai sangue, e o amor não pode ser atirado contra uma janela de um sedã cinza nem disparar um alarme. Talvez então fosse melhor amar, simplesmente amar, acabar com toda essa manifestação estúpida que não chega nunca a lugar nenhum e amar, a tudo e a todos até que todas as palavras de todos os manifestos tenham sido escritos em todos os corpos. Impossível? Por que, por que seria isso impossível?

Violeta volta com sua pedra nas mãos. Por um instante, pensa que ela atirará também esta pedra contra algum carro estacionado, talvez contra a janela de algum estabelecimento comercial suficientemente burguês, ou quem sabe um banco, mas ela não atira. Não viu o que Violeta escreveu, mas pode imaginar. Violeta não gosta de frases prontas, diz que uma frase pronta é como uma estátua, e qualquer um pode ver e tirar fotos de uma estátua, e depois inventar uma história para a estátua, dizer que tinha um bigode ou que tinha um pombo sentado em cima do chapéu, e a estátua será apenas este pombo e este chapéu, duplamente eternizados de foto e de pedra. Por isso que é preciso escrever com muitas palavras e a cada vez com uma palavra diferente, para que ninguém pense que se trata de uma estátua e então tire uma foto.

— E se tiver sido a passeata?, Erre pergunta.

— O que tem a passeata?

— Se tiver sido a passeata quem passou por cima, quem atropelou e matou o cachorro? E então?

Erre sabe que está provocando Violeta, está tentando levar Violeta a algum tipo de limite, mas ele mesmo desconhece esse limite. Sente que deveria estar entendendo melhor as coisas que faz, mas não está entendendo. Olha para Violeta para ver se Violeta ainda sorri. Mas Violeta não sorri mais. Vê em seus olhos que ela pensa em derramar uma lágrima, mas logo desiste, e finalmente, decide substituir a lágrima por um olho fatalista. Os olhos fatalistas são secos, mesmo quando estão tristes.

— Então eu diria que é difícil andar sem pisar em cima de alguma coisa. E se contentar em saber que pelo menos, na maior parte do tempo, nosso chão é apenas o asfalto.

***

Ouvem um ruído de trem, vindo de longe. Violeta escreve um manifesto a batom na traseira de um carro. Além de manifesto é também um beijo, um grande beijo sem boca, sem saliva e sem língua, beijo apenas de palavras, e de batom. É todo o amor que está disposta a dar. Ou que pode dar. Violeta recebia beijos de sua mãe e de sua tia, e até de amigas da família quando era pequena, e se os beijos ficavam no seu rosto era porque o batom ficava no seu rosto, como uma espécie de prótese de todo o amor que recebia. Dos beijos tão curtos, que desapareciam quando se pensava neles, ficava o rastro. O batom como uma réplica do que acontece com a memória. Ficam os rastros. Depois vieram os homens, e então os beijos já eram mais longos, e se podia pensar, e se podia dormir sobre um beijo, mas aí então já não havia mais rastros. Erre lhe dizia que não gostava de lhe beijar de batom pois sentia que seus lábios não eram seus lábios, mas para Violeta era uma chance de capturar o rastro do beijo de Erre. Depois do beijo, afinal, o batom já não pertence mais a ninguém, ou então pertence aos dois, ao mesmo tempo em uma única boca-memória. No carro, o beijo de Violeta tem apenas o rastro, como uma pequena assombração. Aquelas bocas jamais poderiam se tocar, assim como uma pessoa jamais poderia amar a todo o universo, se não for através de próteses. Violeta sabe disso, e por isso cria todas as próteses do mundo para que o mundo possa vê-la, possa sentir aquilo que pensa e aquilo que tem a dizer. Na bolsa, Violeta carrega uma foto de Erre, três por quatro, tirada na rodoviária entre uma seriedade e um sorriso. Um rosto que Erre jamais faz, jamais além de uma fração de segundo, e ainda assim Violeta tem de reconhecê-lo, e se força a reconhecer a Erre naquela foto. Uma prótese. O trem parece se aproximar, o som das rodas girando cada vez mais alto e mais alto.

— Que trem é esse?, diz Erre, tentando gritar mais alto, do que a locomotiva, do que a passeata, do que os pássaros, do que o universo.

— É o trem da história, Violeta responde, segura.

***

As rodas giram, as rodas giram, as rodas giram, as rodas giram, todas muito barulhentas, todas muito contínuas, sem dar qualquer espaço para que qualquer coisa atravesse seu destino de rodas girando, ininterruptamente, sem pequenos silêncios para que se possa dizer algum argumento convincente que pudesse fazer com que as rodas parassem de girar, hesitantes, refletindo sobre suas próprias convicções.

Não, essas rodas não tem convicções e também não tem silêncios. Algumas coisas no universo tem convicções, e com elas se pode argumentar, e os argumentos podem ter algum efeito ou não. Outras coisas no universo apenas se movem. Neste caso, a pergunta que se deve fazer não é o que se deve dizer a uma coisa que apenas se move. Mas sim, o que se deve fazer posto que ela se move. Neste caso, se pode começar pensando que há coisas que apenas se movem que podem perfeitamente ser ignoradas. Erre às vezes ignora o sol pela manhã, e pode até ignorar que a manhã se transforma em tarde, e pode também ignorar depois que a escuridão volte a tomar conta de tudo o que era claridade, assim como o vazio toma conta de um estômago esquecido enquanto os olhos olham para o alto e enxerga ranhuras no teto e as ranhuras formam desenhos, e isso basta de universo e não é necessário mais nada. Sim, há coisas que apenas se movem e que podem ser perfeitamente ignoradas.

Mas neste caso, Erre não pode ignorar, ou talvez não saiba como, e por isso pergunta a Violeta se não deveriam estar correndo atrás de um trem quando este trem é o trem da história, e Erre espera por uma resposta, e se não há resposta, é porque Violeta também sabe que pode ignorar certas coisas que se movem, assim como se podem ignorar algumas que falam. E então Erre corre, e corre atrás do trem, e as rodas do trem giram, e giram, e giram, e Erre pensa que talvez houvesse alguma corda que pudesse puxar pairando pelo ar, algum botão que fosse elétrico ou algum gesto que uma simples mão pudesse fazer para que parasse, para que olhasse, ou para que se importasse. Haveria ali algum maquinista para fazer este papel, de alguém que se importasse? Mas de todo modo Erre já está sem fôlego, e as rodas giram e giram e o trem já está longe e longe de todos os olhos e olhos.

— Ele não para aqui, e tampouco nós somos os passageiros que ele procura, diz Violeta finalmente, com uma voz distante. Mas não se preocupe, ele não vai para nenhum lugar interessante.

Mas Erre não está certo disso. Talvez possa seguir caminhando por aquela marcha por mais vários dias, meses, e poderia seguir mesmo por toda a eternidade, marchando sem jamais chegar a lugar algum, sem jamais dizer realmente porque marcha, sem ouvidos que o escutem todas as palavras razoáveis nem as raivosas que eles tem a dizer nem as que não tem, e talvez a marcha pudesse se transformar em uma vida por si só, e suas rodas girariam e girariam, mesmo sem rodas, e sem fumaça e sem trilhos e talvez até mesmo sem maquinista, e Erre poderia chamar aquilo de vida. Mas então olhava para o trem e para as janelas do trem, e via os vagões lotados, e via pessoas que também marchavam e que também não sabiam para onde, nem quando desceriam ou se desceriam. Olhavam para jornais repletos de figuras ou então olhavam para o teto e encontravam grandes cartazes coloridos que falava de pessoas, e essas pessoas não estavam naquele trem. Mas então, onde estão todas as pessoas dos cartazes coloridos? Talvez estivessem do outro lado da janela, para onde elas também olhavam, ainda que eu não diga que olhassem atentamente, pois ninguém olha para ninguém nem para nada atentamente enquanto as rodas giram e giram e giram. Aliás, talvez estivessem na própria manifestação, por que não? Mas e as outras pessoas, as que estavam dentro do trem, quem seriam? Talvez quisessem descer? Talvez estivessem esperando por Erre, torcendo por Erre, pedindo timidamente a si próprias que Erre as alcançasse? Erre não sabe. Não tem como saber. Tem apenas como correr, e ficar ofegante, e gritar ofegante coisas que talvez sejam ouvidas lá dentro, ou talvez não. Também isso é difícil saber. Por isso Erre se lembra novamente dos pássaros que cantam, e que talvez também eles esperem um dia serem ouvidos pelos que estão do lado de lá de seus cantos, e que talvez brinquem de espera já há tanto tempo que já entendam que cada voz tem seu lado de cá e seu lado de lá de sua própria janela. Erre se lembra então da janela de carro quebrada por Violeta minutos atrás, e do carro que respondia com todos os seus escândalos, berrando com a voz de alguém que não estava lá para berrar por conta própria, com um berro terrível de máquina e de bateria que se esvai como coração e de choro como aqueles que só as máquinas sabem chorar, e que retorce um ouvido humano por dentro de uma maneira tão estranha que não passa, que se entala no esôfago por onde passam as lágrimas que as humanas e não as , não passa porque não cabe, e faz tudo o que há de alma se perder por ouvir um choro que não é choro, e também por isso dói. E então Erre pensa que talvez seja isso o que se ouve ao se quebrar também a janela dos trens, e das manifestações, e talvez até mesmo a estranha janela dos pássaros. E se for assim, como se pode quebrar uma janela como a dos pássaros, ou a dos carros, ou a de um trem, de qualquer trem de qualquer história? Que objetos duros e pontiagudos podem ser suficientemente delicados?

Finalmente, Erre responde a Violeta que talvez todos os lugares sejam interessantes, ainda que não acredite realmente nisso, e que se estivesse no trem, provavelmente iria querer transformar o trem em alguma outra coisa, e seria tão difícil com todas aquelas rodas que giram, e giram, e giram. E agora Violeta está fazendo um aviãozinho de papel com um dos panfletos da manifestação e o atira com todas as suas forças para longe, e o aviãozinho dá cinco piruetas e meia no ar e volta, e seu bico bate na ponta do nariz de Violeta, que grita ai mas ninguém se importa com aviõezinhos que são de papel.

Violeta e Erre caminham sem dar as mãos. Violeta pensa que dar as mãos seria limitar aquilo que se pode andar. Um pedaço menor de asfalto seria coberto, e além disso estariam andando sempre no mesmo ritmo, como se todo o resto do corpo tivesse de viver uma vida copiada a partir do momento em que as mãos se colassem, as mãos como um condutor de individualidades, aberto nas unhas e por isso a mistura. As unhas de Violeta são grandes e são vermelhas. Violeta se arranha enquanto anda, arranha seu pescoço e arranha seu próprio rosto e sua testa, e tudo fica vermelho, e é como se saísse sangue, só que um sangue que não chega a sair. Um sangue preso, um sangue que quer arrebentar, mas não consegue. Violeta pensa novamente no mercado, não, não vai dar tempo de ir no mercado bom. O mercado ruim tem vegetais cheios de agrotóxicos, e tem funcionários cheios de agrotóxicos e tem patrões limpinhos e cheirosinhos que nunca são vistos e por isso Violeta pode apenas imaginar que sejam limpinhos e cheirosinhos. Violeta também os imagina carregando sacolas plásticas, dezenas de milhares de sacolas plásticas repletas de agrotóxicos que os patrões limpinhos e cheirosinhos carregam com as próprias mãos até o meio de uma rua deserta e atiram para que os ventos cheios de agrotóxicos se encarreguem do resto. Um planeta ensacado, pensa Violeta, e sua testa já não está mais vermelha e é como se nunca tivesse estado. A pele se regenera rapidamente, a pele está sempre se regenerando. Erre pensa que em Violeta, deve fazê-lo centenas de vezes por dia. Uma pele em eterna reconstrução, por mais que seja rasgada, por mais que seja violada, quem mais seria capaz de existir desta maneira? O que está debaixo da pele não se regenera tão facilmente. Talvez haja todo um mar de carne destruída por debaixo da pele de Violeta, mas isso ninguém pode ver e talvez ninguém possa sentir. Talvez seja assim também com o mundo, ou ao menos com as passeatas. Erre olha novamente para o asfalto, pisoteado impiedosamente por milhares de pares de tênis velhos e encardidos com suas milhares de solas de borracha, já tão usadas e já tão gastas enquanto o asfalto permanece inteiro. Não parece ser uma visão particularmente vitoriosa, não aos olhos de Erre.

Do outro lado, há outro grupo de pessoas, e este grupo de pessoas parece vir em sua direção. Passa pela cabeça de Erre que durante todo este tempo eles caminhavam sempre em uma direção, e não uma outra, mas que poderia ser uma outra. Não que isso não houvesse passado antes pela cabeça de Erre, mas era algo que ele sentia vontade de questionar, mas que depois se perdia. Este grupo, ao contrário, sabe que caminha em uma outra direção, pois parece fazê-lo de propósito. Erre vê o semblante de Violeta se inquietar. Se contorce, e depois se destorce, como um pano velho. “É uma contra-passeata”, Violeta lhe escorre pela boca, como se de voz economizada. O que seria uma contra-passeata? Erre não entende muito bem o que isso quer dizer. O bando se aproxima, carrega cartazes pretos e brancos e também alguns cinzentos, e alguns soltam berros e outros também, e Erre não entende o que dizem, e talvez Violeta entenda, pois Violeta sempre entende essas coisas e seus ouvidos sempre souberam separar bem os sons quando Erre canta e ela tenta ouvir alguma notícia de alguma rede alternativa que solta notícias, e elas caem em um ouvido de Violeta enquanto a música de Erre se desprendem pelo outro por serem muito mal cantadas e desrespeitosas com as próprias notas que elas se propõem a imitar. Além disso, o bando parece ter raiva, e parece querer parecer ser maior do que todos os outros bandos, os bandos de manifestantes, os bandos de pássaros, os bandos de passageiros de bandos de trem, os que cantam e os que não cantam, os que giram e os que não giram. Mas o que faria uma contra-passeata? Poderia anular a passeata que Erre e Violeta faziam? Seria essa a lógica dos poderes do universo afinal, e a cada passo que se ganha, há outro passo que pode tirar?

***

Violeta agora se prepara para dar pontapés nos manifestantes que caminham na direção contrária. Violeta não tem certeza de que se trate da melhor coisa a fazer, mas está resolvida a dar os pontapés. Colocar uma perna na frente da perna que passa, quando menos se espera, e então irá se espatifar contra o chão, um joelho ralado e um cotovelo, talvez mesmo o rosto. Violeta não gosta de atos violentos nem nunca gostou, mas não considera que isso seja um ato violento. É um ato necessário, assim como comprar alguns pães e também frutas e também cereais no mercado ruim mais tarde também será necessário. Talvez também precisem de margarina, mas apenas se derem algum tipo de desconto, dos que eles dão para clientes cadastrados. Violeta tem um cadastro no mercado ruim, mas consegue separar bem as coisas, e por isso não se sente mal com isso. Erre por sua vez não daria o pontapé, mas talvez fosse mais por algum tipo de covardia interna que ainda não entende muito bem. Ou talvez tivesse outro motivo. De fato, o que faria um pontapé além de furar a pele? Mexeria em algo por dentro?

***

Violeta e Erre correram o mais rápido que podiam, e agora já não sabem onde estão. Erre pensa que talvez não estejam em lugar algum e Violeta lhe diz que deve parar de dizer bobagens. De todo modo já está escuro, e não saberiam onde estariam mesmo que estivessem em algum lugar. Violeta já entendeu que não deixaram este limbo tão cedo, e que provavelmente não chegarão a tempo nem mesmo para o mercado ruim e comerão bolachas de água e sal no café da manhã. Talvez tenham um resto de pó para café em casa, mas seria para uma xícara, não para duas, e seria café ruim. Erre lembra que o café está fora da validade, mas nada diz. Tampouco diz algo para reprovar o comportamento de Violeta, que não foi de todo mal, o rapaz mal se derrubou no asfalto e já se levantava de novo, talvez as palavras que vieram depois tenham caído com mais força, e depois eles começaram com outras palavras, mas aí já não eram dessas de falar mas sim de correr por cima de arames farpados e de muretas com apoio para os pés, e de pisar os pés em outros pés e de respirar depressa e rasgar barras de calças e das pernas, e sair sangue mas não se sabe de onde nem porque, e de não saber como se chegou aqui, ou se chegaram em algum lugar ou ainda não. Amanhã de manhã, Violeta comprará o jornal e haverá uma foto de todos eles. Sabe que haverá uma foto pois viu que havia fotógrafos ao redor em vários momentos. Eram como vagalumes com suas câmeras que se acendiam e depois se apagavam, e quando se apagavam, desapareciam, como se deixassem de existir quando não havia luz. Como se existissem apenas ali, no momento em que a luz se acendia, como em um flash.

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