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A grande viagem para Abitibi

Havia um grande vazio no Québec, região francófona do Canadá, no início dos anos 30. Um vazio repleto de verdes e marrons e brancos, que mais tarde seria conveniente aglomerar em torno de uma única palavra sem cor e chamar de meio ambiente.

Um vazio repleto de pessoas. Mas estes estavam distantes demais para serem vistos, e não vieram ao caso.

De todo modo, estes vazios foram divididos em vários pedaços de pequenos vazios, e ganharam nomes. E seus nomes, viraram projetos. O primeiro deles, o de Abitibi-Témiscamingue.

E o projeto ganhou pessoas, mais tarde transformadas em colonos. Em trens, partiram, e provavelmente cantaram durante a viagem, posto que é assim que se faz no Québec que nunca foi de voyage, mas sim, de voyagements, palavra grande que serve para cobrir melhor o tamanho do trajeto. E mostrar que é com grandes canções que se aumentam as pernas.

E então, eles chegaram neste pedaço de vazio, que a esta altura, já não era mais vazio, posto que tinha nome, e as coisas que tem nome jamais podem ser chamadas de vazias, nem mesmo por decreto.

E diante daquela paisagem de uma grama de um verde amarelado e de árvores que se estendiam até o horizonte após o qual haviam ainda mais árvores e mais gramas verdes amareladas, um deles finalmente disse, como que para quebrar o silêncio que lhes acometia:

“On sors d’un trou seulement pour tomber dans un autre”.

Chega um ponto, porém, em que cansamos de buscar novos buracos, e descobrimos que, afinal, o mundo é feito de buracos, e que não há para onde subir sem sua respectiva queda. Coube aos colonos tentar preencher o pedaço de Abitibi encontrado, e transformá-lo em algo sobre o qual seus pés pudessem caminhar.

Abitibi, aliás, era uma terra sem papel. O que não quer dizer que fosse uma terra sem memórias, ou idéias, ou palavras de carinho órfãs de meio de transporte através do qual pudessem acariciar outras palavras de carinho mais distantes. Trinta anos depois, a questão parecia encontrar uma solução definitiva, e Abitibi deixava de ser uma colônia agrícola para se tornar uma colônia industrial, hospedando a maior indústria madeireira québecois, responsável pela produção de largas quantidades de papel.

O papel construído, porém, era enviado pelos trens de carga para o sul sem que tivessem a chance de serem preenchidos pelos colonos do norte. E suas letras ficavam engasgadas, e seus carinhos e memórias entalados. Para resolver isso, o jeito foi mesmo fazer cinema. E de tanto as pessoas do sul, saudosas ou, ao menos, curiosas, virem visitá-los no norte com seus enormes equipamentos cinematográficos, logo também eles, em Abitibi, aprendiam a gravar seus carinhos em longos rolos de filme.

Apenas que aí, então, já não eram mais carinhos, e sim mágoas.

 

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